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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Notre Dame

"É de manhã e desperta Paris
Com o som de Notre Dame
Há um burburinho que soa e condiz
Com o som de Notre Dame
Grandes sinos que dobram com pompa
E sininhos com som de cristal
A alma de toda Paris vive toda afinal
Do som de Notre Dame"

O Corcunda de Notre Dame, Disney 1996

Donativos para a reconstrução da catedral, por mais chocante que nos possa parecer, por mais imoral que nos possa soar, são tão legítimos como qualquer doação a favor de qualquer causa.
Se me faz comichão a disparidade de valores face a outras situações, sobretudo as que envolveram perdas humanas? Pá, um bocadinho. Eu não o faria, por exemplo. Mas isso não me dá o direito de julgar e apontar o dedo a quem escolhe doar o seu dinheiro para isto. Porque não, lamento mas não são "esteiros e estacas ao alto", não é só um edifício, não é só uma catedral. São séculos de História de um povo.
Eu não faria uma doação monetária para a reconstrução de Notre Dame, mas isso não me dá o direito dizer que é ilegítimo alguém o fazer. Da mesma forma que não me compete julgar o vizinho que ajuda o cão abandonado, mas não visita a mãe no lar há mais três meses. Da mesma forma que não aceito que julguem as minhas ações: faço o que posso e giro as minhas prioridades como acho adequadas e como me fazem mais sentido.
Ah, e o humor sobre isto é só mesmo isso: humor. Uma piada que vem, ri, faz rir e vai à sua vida. Não necessariamente uma opinião sobre o tema.
Podemos ser uma bocadinho melhores do que eternos juízes do Facebook, não podemos?

Devolvam-me a realidade, por favor

Se há coisa que eu adoro nesta vida - além de papas de aveia - é a literalidade.
Há lá coisa mais bonita do que um mundo sem piadas e sem ofensa em cada esquina? Um mundo puro e casto, com floreiras de tulipas no inverno e rosas sempre em botão? Sem esta malta armada em engraçadinha e sempre a mandar bitaites sobre tudo e sobre nada. Isto não é humor. Humor eram os Malucos de Riso que gozavam com esterióripos, mas como tinham o Camacho Costa a malta não levava a peito.
Agora é só humoristas de trazer por casa e comediantes de caixas de comentários a notícias espalhafatosas.
E eu não gosto disso. Porque é que não podem dar opinião sem gozar? E depois nós é que não temos poder de encaixe! Como se fossemos nós o défice da equação, como se o problema fosse mesmo nosso, dos literais, a quem tudo ofende.
Chamam-nos virgens ofendidas. Não porquê: nem sequer há virgens nestes tempos. Isto enerva-me! Não podem ser concretos um bocado e falar a sério? Sem ironia, sem escárnio e sem sarcasmo? Custa assim tanto utilizar metáforas bonitas e que não aleijem muito o nosso ego? Já não chega envelhecer, as articulações a ceder, a confiança pessoal entrar em colapso e ainda temos que levar com piadas de algibeira? Todos os dias? A todas as horas? Não dá!
Quero a minha literalidade de volta, quero sentir outra vez o peso das dores onde insistem em alegar que o humor atenua, quero viver livre, feliz e contente na minha verdade. Agora, calem-me essa gente das piadas. Já ninguém as suporta.
E viva o 25 de abril! Apesar de eu achar qu'isto no tempo do Salazar é que era bom e que agora há liberdade a mais. Mas pronto, viva o 25 de abril porque aquilo ainda deu trabalho e com trabalho não se brinca. Nem com dinheiro, também não se brinca com dinheiro. Aliás brincar só com bonecas. De plástico, que as de porcelana quebram e depois alguém tem que limpar.

Querido Sr Pedro

 

Tentei ligar-te ontem, mas a linha aí para cima estava ocupada. Deduzo que o Osíris estivesse a tentar a sorte dele contigo antes de partir outro telemóvel, por isso vou tentar a via mais tradicional. Pode ser que o Wi-Fi aí já funcione e estejas ligado à rede.
Olha, tu sabes que eu te curto. Eu tenho esta mania de dizer que não acredito e que não faz sentido e que o inferno é que é bom, mas tu sabes, bem lá no fundo, que são só balelas. É só para ser fixe e sentir que mando alguma coisa, quando na realidade não mando nada. Enfim, humanos. Tu percebes, certo Sr. Pedro?
Mas hoje não é por mim que quero falar contigo. É o seguinte: dizem os senhores da meteorologia que amanhã chove a potes. Ora, até aí tudo bem não há grande problema, mas achas que, eventualmente, podes fazer aí uma pausa nisso a partir da madrugada de sábado? É só umas horitas, 8 a 10 no máximo. Passo a explicar: uns amigos vão fazer uma caminhada até uma amiga tua (a amizade deve valer alguma coisa aí em cima, não?) e já é duro o suficiente levantarem-se às 3 e tal da madrugada para percorrer 40 e tal quilómetros. Tu já viste o desmoralizante que é se ainda por cima lhes cair o céu em cima sob forma de água? É desumano. Dá para dares aí um jeito a isso? Podemos trocar, se quiseres: tenciono ir correr amanhã à noite, podes largar tudo em cima de mim que eu tenho bom lombo e posso com isso (mas só em cima de, ok? Arranja aí uma nuvem como a Elsa arranjou para o Olaf, pergunta-lhe como é que ela fez que ela é boa moça e de certeza que te ajuda). Desde que deixes ali umas horas de tréguas, por mim tudo bem. A propósito, das 18:30 às 20:00 o homem - e mais uns amigos - têm um trail. Vê lá isso também, por favor. Já é muito? Hmmm, e se eu deixar três estendais de roupa quase seca à tua mercê e não reclamar nadinha? Temos acordo?
Repensa lá isso, por favorzinho. Lembra-te que nem sequer reclamei da tua febre que quase nos cozeu vivos dia 24 de março, hã? Não custa nada agora dares aí este jeitinho. Pensa nisso, com todo o teu carinho.

Tua eterna devota,

Caracol

Escolhe a mentira

Limpei o interior de um carro com lixívia pura e tive de andar três dias com os vidros abertos. Paguei combustível e saí da bomba sem abastecer. Caí de uma passadeira em andamento. Atropelaram-me o pé e eu fugi porque achei que a culpa era minha. Tive ideia para um passatempo supimpa que abre daqui a pouco. Tive um acidente, fui culpada, chamei a polícia e não tinha inspeção no carro. Retoquei a pintura de um carro com tinta preta, a pincel. Alinhavei o meu último texto. Fiquei fechada na mala do meu próprio carro, por azelhice. Perdi a lâmina da chave do carro. Deixei cair uma toalha em cima de um foco de luz ligado e por um triz não incendiei o ginásio todo. Acertei sem querer com a bola de 6kg no professor na última aula de PT, semana passada.

E agora? Onde estou a aldabrar?

As pessoas não percebem

As pessoas não percebem que se guardem dores para mais tarde. Não percebem que se fale, elogie e homenageie alguém sem chorar, sem apelar à lágrima e sem vitimizações. 
As pessoas não percebem que não se queira partilhar a dor mas que ao mesmo tempo se queira partilhar a vida que foi, os momentos que passaram, o ciclo que se fecha. 
As pessoas esperam ansiosamente pelas lágrimas em cascata, pelos gritos agonizantes, pelo delírio de dor. As pessoas querem que se continue, mas estipulam um prazo para o (re)fazer. 
As pessoas não entendem que a ausência de lágrimas em cascata, esconde uma ferida de peito aberto que não vai sarar nunca, não vai ganhar couraça e vai sempre moer. 
As pessoas querem sempre muito bem e muita luz e muita paz, mas não sabem respeitar o silêncio e ouvir apenas a história que se pretende partilhar. 
Saber quando estender um lenço de papel é tão importante como saber escutar. E escutar é ouvir aquilo que nem sempre nos mata a curiosidade e alimenta a sede de lágrimas. É ouvir o que foram risos e gargalhadas, sem esperar que a dor fique visível. E não fingir que não dói, apenas ouvir e respeitar a dor que prefere ser sentida em silêncio e sozinha. 
As pessoas não entendem isto. 
E isso é mais triste e desumano que todas as dores que possam estar escondidas no âmago de alguém.

Fiz a Petrus Run pela terceira vez e sobrevivi

1km

 

Vamos lá, isto hoje vai ser sempr'andar. Siga. Foco no final. Alguém atrás de mim diz motivadoramente "Vamos lá qu'isto agora até aos Carvalhos é sempre a subir". Como se eu não soubesse e fosse a primeira vez que ali ia. Respira. Não penses. Corre.

 

2km

 

Faltam 8. O relógio que Cravei ao homem vibra no meu pulso, leio a mensagem "Fantástico! Objetivo cumprido!" e percebo que em vez de colocar aquilo em cronometro, coloquei em objetivo para 2km. 🤦

 

3km

 

Está um calor que não se pode. Apetece-me mesmo caminhar. Resisto à tentação do diabo e continuo a subir o inferno.

 

4km

 

Já disse que é sempre a subir? Ainda não? Pronto, é sempre a subir. E estava um calor do cacete. Os lábios rachados, os pulmões colados, o ar rarefeito e as pernas pesadas. A subida dos impropérios é aqui. E odeio-a.

 

5km

 

ÁGUA! H2O!
Ao abrir a garrafa, perdi a tampa. Bebi dois goles e pensei em guardar o resto, correndo (agora a descer) com ela aberta muito direitinha na mão. Obviamente não resultou, pelo que encharquei a T shirt, pelo menos tinha proveito no desperdício.

 

6km

 

Estamos em agosto, às 2 da tarde. Ou isso ou no inferno. Não sei o que me dói mais: se a falta de água, se as pernas, se o pó que aloja nas vias respiratórias e faz comichão no palato, se o arrependimento de estar aqui outra vez. A última, definitivamente, por isso autoflagelo-me em mais uma pequena subida que dói como mil brasas incandescentes em todo o lado.

 

7km

 

Mais uma subida. Curta e grossa. Apetece-me fazê-la a rastejar, mas contento-me com uma passada ligeira. O sol é implacável e dou comigo a pensar que se aplicar um golpe à Van Dame na nuca da moça que vai à minha frente talvez lhe consiga sacar a garrafa da água.

 

8km

 

Dou um rim por água. A sério, não preciso de dois, sobrevivo bem só com um. Corro pelo passeio para tentar apanhar o máximo de sombra, não dou conta de paralelo mal colocado e calco-o em força. O tendão queixa-se, eu continuo.

 

9km

 

Quero morrer. Agora.
O tendão continua a ganir baixinho.

 

9.5km

 

As solas parecem feitas de uma goma que derrete e cola ao chão, mas está quase e só quero mesmo que acabe.

 

9.700km

 

A pista é ENORME. NUNCA MAIS ACABA.
O quê?! Olha-me agora esta caramela a querer passar-me à frente. É que nem penses minha menina. Não andei eu a chegar até como carne desitratada para agora me passares a perna. Era só o que mais faltava. Entraste comigo no estádio, por isso só tens soluções: ou acabas comigo ou ficas para trás. Agora despacha-me esse rabo! (Esta última já foi de mim para mim).

 

10km

 

Passamos juntas e posso jurar que lhe ouvi um obrigada. Não percebi, porque na minha cabeça todos os rostos tinham a forma de uma garrafa de água.
Uma hora e seis minutos depois da partida, cheguei finalmente ao fim. Se foi um bom tempo? Eh, podia ser melhor. Mas também podia ser pior. É a terceira vez que faço a Petrus e de todos, este foi o pior tempo. Mas também foi aquela que fiz com menos preparação, tendo em conta que só recomecei a correr há pouco mais de um mês e que foram quase dois praticamente parada. Se estou frustrada? Nem pensar! Foi espetacular! Tenho 30 anos e 30 km de Petrus nas pernas, hã? Respeitinho.
No final disto, descobri aos 30 que afinal gosto de papas de sarrabulho. Era quem me batesse por todas as vezes que lhes torci o nariz.

Os verdadeiros benefícios da corrida

 

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Toda a gente nos tenta vender a ideia de que correr é fixe, que quem corre é muito mais feliz e que ganhamos anos de vida por cada quilómetro percorrido.

Uma treta se querem saber.


O que vale é que existem pessoas como eu, que vivem para contar a verdade sem medo de represálias – até porque ninguém leva a opinião do alcatrão a sério.

Apertem lá os atacadores (fictícios, obviamente) e venham comigo dar uma voltinha pelos verdadeiros benefícios da corrida.

 

  1. Promove a valorização das pequenas coisas da vida.

Como o oxigénio, por exemplo.

  1. Aumenta o vocabulário.

No que toca a impropérios, claro. Desde o “cê” ao “pê”, passando pelos “efes” todos. Vale tudo.

  1. Reconhece a importância do tempo.

Tanto que há alturas em que só nos apetece partir a porcaria do relógio porque o estuporzinho se recusa a acompanhar a nossa velocidade de passada imaginária.

  1. Adia o estado de falecimento.

Até porque para morrer é necessário estar vivo, portanto…

  1. Erradica medos irracionais.

Têm medo do escuro? Do apocalipse zombie? De bruxas? Isso é para meninos. Já viram alguém vivo a correr? Eu já. É assustador.

  1. Aumenta a consciência corporal.

 Sobretudo ao nível dos gémeos. E das coxas.

  1. Catalisa a criatividade para frases motivacionais.

 O que sobe também desce. O que alcatrão percorrido já passou. Só falta acabar. ESTÁ QUASE!

  1. Melhora o funcionamento cárdio-tóraxico

O meu está tão bem afinado que às vezes parece até funciona fora do corpo. Sobretudo nas subidas. Perdão, nas P*&@S das subidas.

  1. Aumenta o humor

O negro, sobretudo. Rir das desgraças também nunca matou ninguém, já correr…

  1. Promove a economia

Já viram o preço de umas boas sapatilhas? E sabem quanto tempo é que elas duram? E as leggins? Não falemos sequer em meias de compressão às bolinhas cor de rosa*.

 

Como vêem eu não minto. Morrer correr faz muitíssimo bem e acarreta imensos benefícios. Agora vou só ali preparar a mente para não panicar nos 10km do demo fáceis deste domingo, esquecer que o gráfico de altimetria parece um CTG de uma grávida em trabalho de parto é mesmo animador e beber um gin chá. Ou dois.

(Alguém orienta aí um Victan? Ou Xanax? Então e Valiuns, não? Rico público… )

*Ainda não existem meias de compressão Às bolinhas cor de rosa. Uma terrível lacuna de mercado, se querem saber. 

Uma vez pai, para sempre pai

"Como é que consegues?"
É talvez a pergunta que mais me colocam. E a resposta, a mais sincera, será sempre: "Não sei".
Como é que aguentamos 2 minutos em agachamento? Como é que aguentamos 30 segundos em prancha? Como é que aguentamos colocar mais carga quando já as pernas são bigornas de ferro fundido?
Habituamo-nos.
A dor passa a ser uma constante, uma rotina e só tens duas soluções: ou te aguentas à bronca e lhe arranjas um quartinho no rés do chão ou enlouqueces e passas a vida fechada no quarto, vivendo a mesma dor uma e outra vez.
Há dias que não é assim tão simples. Que só apetece afogar as mágoas numa garrafa de gin puro e dois ou três Xanax. Há dias que não se consegue ser feliz pelos outros. Há dias em que não apetece agradecer e só queres amaldiçoar a vida. Contudo, como num agachamento isométrico que que dura tanto que faz as pilhas duracell parecerem do chinês, ao assumires que dói, habituas-te à dor e acabas por sentir menos. Dói um bocadinho, mas tive isto tudo com ele. Gostava de lhe poder contar que sou capaz de correr 10 km, mas ele viu-me a andar de bicicleta - e a cair. Montes de vezes. Seria o primeiro a chamar-me destrambelhada e a dizer-me que consigo mais e melhor.
Há dias que fazem um bocadinho mais de mossa, mas eu sei que tivemos um boa vida enquanto durou.
E isso basta.