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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Tema #5 - Hitler no purgatório

- Então, mas afinal que raio se passa aqui? Estou aqui há duas vidas e meia e esta porra desta fila não anda! Ainda por cima está um frio de morte, até parece que quinou algum judeu por aqui. Para cúmulo, estou cheia de fome, já comia uma sandocha de carne assada. 

- Tenha tento nas palavras, menina. Há coisas com as quais não se devem brincar e o assunto ali à frente é sério. 

- Perdão, Virgem Santíssima. Espero que o Céu lhe abra as portas e não se esqueça de reagrupar lá as Capazes todas. 

Ignorei o sururu atrás de mim e segui em frente. Há guerras que não vale a pena comprar, mesmo tendo a eternidade pela frente. 

Lúficer, S.Pedro e Hitler continuavam a já entediante e morosa discussão. Há anos que estão nisto. Se Adolf não tivesse aniquilado milhões de judeus em trabalhos forçados, de certeza matava o dobro de tédio nesta fila interminável. 

- Méns, ainda a mesma discussão? Francamente, parece que estamos todos na primária! Qual é a dúvida? 

- Lúcifer continua na teimosia de não levar este... Senhor... Lá para baixo. 

- Escusas de passar as culpas para mim Pedrocas. Já fiz o favor de ficar com Judas e engoli em seco o Estaline. Este levas tu. 

- Pedro, mén, o Luce...Ifer, o Lúcifer tem razão. Lá porque Ismael tem a fama de anjo mau, não quer dizer que tenha as asas mais largas. Não é justo. 

- E achas, por acaso, meu querido querubim em forma de molusco, que o Paraíso é para almas como ele? 

- Olha, por acaso até acho. Iavé, segundo a palavra escrita por vocemesses, é grandioso em amor, benigno e benevolente. Achas que não daria uma segunda oportunidade, inclusivamente, a este grandioso senhor? 

Aproximei-me mais do santo, sussurrando-lhe ao ouvido: 

- Além disso, Pedro, escuta bem o que eu te digo: Lúcifer tem as brasas, mas tu não tens nada, nem ninguém que te faça um churrasco de jeito. E o homem tem mão para a coisa. Aqueles fornos foram uma obra dos diabos! Sem ofensa, Luce. 

- Não me ofendi. 

Pedro salivou, qual cão de Pavlov. Raios, há anos que não comia um bom churrasco, Belzebu levara as brasas todas com ele quando fora expulso pelo Criador e nunca mais o Paraíso tivera um bom encontro com comida nas brasas. 

- E se o Boss descobre? 

- Pedro, Pedro, Pedro... Há quantos anos trabalhas tu aqui? És praticamente um escravo dele, mén. Orienta-te! Revolta-te! faz as coisas pela tua cabeça uma vez na vida, caramba! Aliás, até podes soltar o gajo umas horitas por dia, lá no vale dos judeus. Só naquela... A ver como corre, tajabere? 

- Perfeitamente, perfeitamente... Diz-me, meu pequeno anjo ranhoso, queres um lugar aqui também? 

- Oh Pedro, que querido! Cá abracinho, mén! Obrigada! Mesmo cá do fundo, obrigadinha. Mas eu mereço o inferno. E não me incomoda o calor. Devo ter alguns amigos lá em baixo e aproveitamos para fazer um roast - o do humor e o da carne. Aparece, se quiseres. Pode, não pode, Luce..Ifer, Lúcifer? 

 

Diário de uma grávida #16

Descobri que sou um péssima grávida: não sei quando começa a minha semana e não sei a quantos dias ando. Não raras vezes vou buscar o livro da grávida para verificar a idade gestacional certa e se me perguntam em meses tenho de recorrer a todo o meu poder de cálculo mental para fazer a conversão, ficando esgotada para o resto do dia. 

Não nasci, definitivamente, para ser um ás a matemática. 

Ainda recorro ao nausefe, embora menos vezes. O que me lixa agora são os oportunistas dos vírus e dos fungos. A médica usou a seguinte expressão na última consulta: "A grávida é, por definição, imunodeprimida. É natural que os oportunistas se aproveitem." 

Estupores, parvalhões, sacanas de uma figa. Sabem quantas vezes, desde que engravidei, tive herpes labial? QUATRO! Fora todas as outras merdinhas que nos chateiam a moleirinha e dão cabo da carteira. 

Quem diz que gravidez não é doença, devia afogar-se em cremes anti-fungicos e retro-virais, auto satisfazendo-se em seguida com os tubos vazios. 

Outra coisa que chegou esta semana em todo o seu poder esplendoroso foi a sensibilidade/sangramento gengival. É uma chatice, mas já tive na gravidez anterior e por isso já sabia o que fazer: adquirir uma pasta de dentes xpto. Não vou falar de marcas, mas posso dizer-vos que é aquela que começa com um P, acaba em X e tem as sílabas a-don-ta lá pelo meio. Já não me lembrava é que aquilo tinha um sabor tão... peculiar. O lhe vale é ser eficaz e valer cada cêntimo. O sangue faz-me falta e deixa-lo espalhado em maçãs roídas parecia-me um desperdício. 

Ainda esta semana, ficou o meu regresse ao ginásio depois de uma semana parada. Não foi muito, só uma aulinha de cycle em modo muito lontra, mas deu para reclamar, que é para isso, essencialmente, que eu treino. 

Por esta semana é tudo. Rezem por favor pelo meu sistema imunitário, para que ele corresponda bem aos probióticos que parecem ser feitos com bactérias revestidas a ouro e para que o pack promocional de pasta de dentes dure até ao fim da gravidez. 

Ah, e rezem também para que na próxima ecografia já dê para ver se é X ou Y. Não é por nada, é só porque me dava jeito dar uma volta às roupas do mais velho. 

 

Eu sei, já usei esta imagem no instagram esta semana. Sucede que não tenho outra foto, por isso... 

#aguentaenãochoraqueeutambémnão

Malta que está no Desafio dos Pássaros, cheguem-se aqui

Sentem-se, sentem-se. Não sei se tenho cadeiras para todos, mas fazemos uma rodinha aqui no pátio.  

Querem comer alguma coisa? Uns biscoitos ou um pãozinho com manteiga? 

É um chá? Vai um chá? 

Não? 

Pronto, então vamos lá. 

Ora bem, eu sei que o tema para esta semana... 

Calma, calma, calma. Deixem-me terminar. 

Dizia eu, que sei bem que o tema desta semana é obra do demónio das letras. 

Menos, vá acalmem-se lá, que assim não vamos a lado nenhum. 

Eu também não sei quem fui que inventou estes temas de Belzebu, mas o desafio é mesmo este: sair da caixa e da zona de conforto. Contornar o problema não o vai resolver, o melhor é mesmo pegarem nele de frente e darem-lhe o melhor fim. 

Eu acredito, mesmo, que todos serão capazes de o fazer e que teremos mais uma semana com muito bons textos. 

Não tenham medo: é só um tema. Não tenham meda das palavras, da parvoíce, do não faz sentido... Porque, na realidade, só cá estamos para nos divertir e o que não faz sentido é a absurda taxa de abstenção nas eleições, tudo o resto pode perfeitamente existir em perfeita harmonia. 

Vá, ide em paz e que o senhor da imaginação vos acompanhe. 

Tende sempre em mente: são 17 semanas... Haverá, com toda a certeza, temas ainda piores. 

E agora, vai um chazinho de camomila? 🙄 

 

Nota: por favor, não falar especificamente do tema em concreto, antes de sexta feira, seja na forma de comentário a esta publicação ou em qualquer outra. 

Nota II: podem fazer fila para me bater, mas se calhar esperamos por março, pode ser? 😜

Tema 4 - A Beatriz disse que não

Não fora assim que imaginara a sua vida aos 32 anos. 

Nunca julgou ter que tomar decisões tão importante antes do meio século de vida. Pensando melhor, nem sequer tinha pensado que existissem decisões deste calibre, muito menos que a liberdade de dizer "não" lhe fosse tão cara. 

A maioria dos seus amigos não compreende, acusando-a de cobardia e de seguir pelo caminho mais fácil. Os poucos que foram ficando ou raramente apareciam fisicamente ou apenas telefonavam sem saber muito bem o que dizer. 

A família ia aparecendo, sempre com a pena a pairar nas íris. Raramente com palavras para mais de cinco minutos de tempo. 

A mãe suportou como pôde, aguentando o barco no meio da tempestade. Até ao dia que afundou na própria impotência. 

O pai raramente a olhava nos olhos. Não o censurava: era difícil para um pai aceitar aquela decisão de uma filha. 

O namorado ficou durante algum tempo, até ao dia que lhe pediu por tudo para mudar de ideias. "Tenta Beatriz, pelo menos tenta" - pedira-lhe desfeito em lágrimas. Ela deixou-o ir, não lhe podia pedir para ficar quando a decisão que havia tomado lhe provocava tanta dor. 

Só a irmã ficou. Inabalável, acomodada às dores constantes - a sua e a de Beatriz - superando a frustração da impotência com um livro, completando o silêncio com uma presença constante. Às vezes chorava silenciosamente. Outras vezes choravam as duas, numa torrente de lágrimas e soluços entre cortados. 

Não fora assim que imaginara a sua vida aos 32 anos. 

O rosto magro e macilento. Um corpo outrora roliço e vistoso, carcomido por um demónio invisível a olho nu. Sugada de dentro para fora. Entrelaçou as falanges finas e débeis. A respiração pesada lembrava-a do quão fina era a corda que a amarrava a vida. Estava cansada. Agora, estava sempre cansada. 

- Não vou estar com paninhos quentes, Beatriz. - dissera-lhe o médico, numa outra vida - Tem um osteosarcoma de grau IV. Muito difícil de curar, mas com algumas possibilidades de tratamento. Com o protocolo de quimioterapia combinado com radioterapia, talvez consigamos mais dois anos. 

O mundo caiu. Dois anos? Vinte e quatro meses? Não queria dois anos, queria a vida toda. Ou tudo ou nada. 

Escolheu o nada e o tudo. 

Há seis meses, dissera que não a um sofrimento que lhe parecia atroz e um aditamento de uma morte que, sentia agora, estava iminente.

Diário de uma grávida #15

Querido Diário, 

Levo 15 semanas disto e sinto que já estou grávida há mais d'ano. Coitados dos elefantes, não sei como aguentam quase dois anos de prenhice

Esta semana os enjoos abrandaram ligeiramente e consegui não tomar nausefe duas manhãs. Depois chegou o refluxo e fiquei novamente enjoada com aquela sensação de comida por digerir na garganta. Emborquei mais nausefe. 

Não tenho treinado. Ora porque não me apetece e faço a vontade ao corpo, ora porque me sinto agoniada, ora porque a moca do nausefe é mais do que aquela que as minhas pálpebras conseguem suportar. Bem sei que é o oposto daquilo que deveria fazer, mas estes dias fiz a vontade a corpo e cedi à moleza. Amanhã talvez vá fazer qualquer coisa - até porque eu sinto efectivamente mais energia quando o faço. 

Até agora só utilizei óleo de amêndoas doces para hidratar a pele. Vi duas estrias no domingo e corri a comprar um creme gordo, se não resultar vou chorar mais pelos euros que aquilo custou do que pelas cicatrizes que ficam - estava em promoção, mas mesmo assim... 

Estraguei de vez o fecho da minha bata, no trabalho, pelo que remedeio a coisa prendendo as partes com um alfinete de ama. Mais cedo ou mais tarde teria que o fazer. Ou pelo menos é o que me tento convencer. 

Ontem, comemoramos anos de casados (8) e o homem levou-me a jantar fora. Cheia de vontade de comer, pedi um prego em prato para partilhar o Caracolinho e já a salivar pelas batatas fritas enfiadas na gema do ovo estrelado. Salivei mais ainda quando o homem pediu bacalhau com natas para ele e aguardei, ansiosamente, a chegada da comida. Quando finalmente chegou, o cheiro das natas misturado com o cheiro das batatas fritas do prego revolveu-me as entranhas e fui incapaz de ingerir mais do que duas colheres de bacalhau com natas. Não toquei no ovo, nem nas batatas. Não pedi sobremesa e passei parte do jantar em apneia. 

Continuo a achar que é uma gaja: só uma gaja é capaz de deitar outra gaja assim tanto abaixo. 

O humor continua igual - abaixo de zero - tal como a paciência. 

Espero ser forte o suficiente para não matar ninguém esta semana. 

Vou lanchar, não que me apeteça muito, mas tenho fome e não quero que a Pequena Bola D'Unto tenha que reclamar de falta de nutrientes. 

Esperemos que para a semana seja melhor, se não for... Pelo menos que hajam bolachas de água e sal. 

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Eu, em modo Wally, tentando engolir a azia. Sim, uso a lancheira do meu filho, e depois? 

 

Nota: começamos no #15, porque é a semana gestacional em que me encontro e assim não me perco mas contas. Simples. 

 

Indumentárias espectacularmente dissecadas

Ontem, diverti-me um bocado, no instagram e no facebook, a legendar as fatiotas dos Globos D'Ouro deste ano. 

Como estava com falta de conteúdo, compilei tudo aqui. 

Aguentem-se que se eu vi tudo, vocês também aguentam. 

 

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Santa Tininha,
Um andor em tamanho real a sair numa qualquer romaria do país.
Ou isso teve medo que o wi-fi falhasse e foi prevenida com antenas extra.
Por via das dúvidas, eu aposto nas duas e lanço as fichas todas na procissão das festas da Senhora d'Agonia. É muita dor na vista.

 

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Eu, quando tinha 7 anos, depois de passar a tarde de sábado a depenar galinhas com a minha tia.
Saudades.

 

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- Mãezinha, achas que a avó sente muita falta da mortalha? Aquela renda é linda e com os cortinados que o avô lhe deu em 1879 ficava um outfit super top.*
(*Não imaginam o que me custou escrever aquilo.)

 

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Alguém que avise o pessoal do Museu Nacional do Traje que o Claudinho usou a indumentária do cavalheiro de 1718.

 

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A Cleópatra deu duas voltas no sarcófago à conta deste traje.

 

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Alguém avise a Cláudia que o seu vestido vai desaparecer misteriosamente lá para novembro.

(Também tenho globos. São é fit. :P) 

 

 

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O chamado "ponto de rebuçado".

 

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E já agora o "ponto estrada".
A propósito, Diana, filha, para a próxima não uses açúcar em torrão qu'isso leva duas vidas a desfazer.

 

A Inês não teve tempo de trocar a farpela depois da missa das 17.

 

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Queria muito fazer uma piada com este bonito lençol de linho com pedraria duvidosa, quiçá um "ponto estrada secundária", mas... Não consigo deixar de focar naqueles dedinhos a fugir da sandália. Não gozemos, vá que é promessa?
#aquilodeveterdoído #todaanoite

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Alguém levou a Greta demasiado à letra. Menos plástico, não quer dizer vestir o plástico, ok? 

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Eu, de manhã, quando acho que posso deixar o nausefe.

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Autch!
#AqueleRaboAleija #inbeja

 
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O que dizem os teus olhos?
Que comprei um laço para putos e tive que desenrascar.
 
 
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Está feito! Este ano... Tudo a Cristina levou. #CristinaOHara
 
 
Relembro que são só piadas a vestuários. Não se enervem. 
Fotos gentilmente camadas da internet, nomeadamente da conta de Instagram de cada personalidade aqui falada. 
 
 
 
 
 
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Tema 3 - Uma aventura ou momento que te tenham marcado

Era mesmo fixe que eu não tivesse feito aqui alta confusão com os temas, não era? 

Desculpem e lembrem-se que estou grávida, logo o meu cérebro baralha a informação que me é dada. Não que fosse impossível isso acontecer no meu estado normal, mas se a gestação pode ser uma desculpa... Então que sirva para isso mesmo. 

Aventuras tenho várias, como sabe quem me lê mais assiduamente e decidi que não ia por aí. 

Momentos também tenho vários: o dia em que fui mãe, o dia em casei, o dia em corri a primeira prova, o dia em que descobri que estava novamente grávida, enfim são muitos. 

Contudo, para hoje, escolhi o momento que todos tentamos evitar. Que tentamos contornar e florear nas palavras, tornando-o menos denso, menos doloroso, menos negro. 

Falemos da morte. 

Não é fácil o momento em que ela nos bate à porta, senhora de si e da sua sabedoria, numa pose de quem chegou e não arreda pé sem levar o que quer. 

Costumo dizer, quando falo nas minhas mortes, que já tive dois funerais: o do meu pai e o da minha mãe. É inevitável não considerar aqueles falecimentos como meus, porque uma grande parte de mim também quinou naqueles dias. 

Renasci, alguns tempos mais tarde, não inteira ou sequer como era antes, apenas diferente. Aprendi de novo onde pertencia, que caminho escolheria e como poderia ser. Descobri que a morte não é um bicho papão e que o maior cliché do mundo é também a maior verdade: é tão natural morrer como nascer. Aprendi a lidar com a dor, guardando-a sempre comigo e fazendo as pazes com ela. Às vezes tomamos chá juntas. Nesses dias, peço um bolo de chocolate a acompanhar. O chocolate torna tudo melhor, até as dores da morte. 

Aprendi com ela, a morte, que a vida só faz sentido estando casada com ela. De que outra forma valorizaríamos tanto o sol, se não existisse a noite? 

Não sei se lhe perdi o medo, gosto de pensar que sim, mas lá no fundo sei que não. Não por mim, não me assusta a minha não existência, mas pelos meus: morro de medo que a morte me leve mais alguém. Por isso mesmo, aprendi a respeitá-la: brinco com ela, satirizo-a, chego até a ridicularizá-la, mas tenho plena consciência que, no fundo, isso não lhe retira nenhum poder. Pelo contrário, aumenta-o. Já a mim, mantém-me consciente de que ela existe, a cada esquina, a cada curva e cada falha de um batimento cardíaco. E acredito, mesmo, que é uma gaja com um sentido de humor do caraças e que não me leva a mal. Se levar... Que se amanhe, que eu também me amanhei quando me tirou o chão. 

Não sou uma pessoa grata

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A gratidão está na moda - para mal dos nossos pecados, que já ninguém aguenta tanta gratidão  nas  redes sociais. 

Incrível como somos todos tão gratos e o  mundo continua com um rácio de humanidade, empatia e compaixão abaixo de zero. Por isso, e porque gosto de contrariar tendências, assumo publicamente: eu não sou uma pessoa grata. 

Não agradeço cada enjoo e vómito da gravidez, apenas porque isso significa a vida de um bebé. 

Não abençoo cada dor que a vida me deu, somente pelas lições que me trouxeram. 

Não venero cada birra do meu filho, só porque sou mãe e ele é uma dádiva dos deuses. 

Não me congratulo com cada falha de oxigénio e cada dor nas canelas, apenas porque sou capaz de correr. 

Sou tão, mas tão ingrata, que nem sequer agradeço o ar quer respiro ou mais uma manhã com passarinhos a apitar numa gaiola - os do beiral da janela já os espantei há muito tempo. 

A gratidão está na moda, mas até que ponto é efetivamente sentida? Até que ponto não se tornou, também ela, mais uma banalidade? Mais um mote para likes no instagram, porque é muito giro estar-se grato pelas estrias e celulite entranhada nas nádegas, mas com uma foto bonitinha e uma boa base que cubra a sacana daquela borbulha que decidiu entrar em erupção mesmo no meio da nossa testa. 

A gratidão tornou-se o novo "amo-te" das redes sociais: banal, corriqueiro e dito a cada inspiração. 

Ver o lado positivo da vida, o copo meio cheio, procurar no meio das nuvens uma brecha que deixe entrar o sol, não é ser grato. É saber sobreviver. É aprender que cair faz bem e não faz mal ficar no chão durante um bocado. É saber que não somos más pessoas apenas porque nos apetece não agradecer nada naquele dia ou nos seguintes. 

Ser grato é estar lá quando todos os outros já foram embora. Quando já ninguém se lembra e já ninguém se importa. Ser grato é estar lá quando realmente é preciso e não só quando é suposto estar toda a gente. É ouvir o silêncio, porque nem sempre o diálogo diz tudo.

Ser grato é retribuir, sem likes, sem legendas, sem mãozinhas unidas e chakras alinhados. 

Não sou uma pessoa grata, não venero todos os meus amigos, não vejo todos os dias o lado positivo da vida. E isso não faz de mim uma má pessoa: só uma pessoa normal, que retribui quando pode, agradece quando acha necessário, canta durante o trabalho para chatear os colegas e adora azucrinar a mioleira dos amigos. 

Tema 2 - O amor e um estalo

Aurora encolheu-se um pouco mais, enroscando-se sobre si mesma, como se pretende-se desaparecer entre os cobertores da cama vazia. 

Deixou-se afogar num choro inconsolável e silencioso. 

Que fizera para merecer semelhante fado? Que raio de karma era este que lhe tirava o tapete do chão, uma e outra vez? O que fizera de errado? A culpa era sua. Tinha que ser sua. A quem mais cabia a função de proteger uma vida em curso, se não à mãe? De nada adiantava os médicos argumentarem que não a culpa não era dela, que não havia que pudesse fazer para impedir.

"São coisas que acontecem" - dissera-lhe a doutora Irene. 

Só que para Aurora, já era a terceira vez que "as coisas aconteciam" e desta vez esteve tão perto do limite temporal estipulado, permitiu-se sonhar mais alto, ver além do número 12, voar para lá do medo. Um luxo que lhe custou uma queda demasiado violenta. Não conseguia aguentar-se sequer de joelhos e tampouco saberia quando iria conseguir levantar-se. 

No torpor de um corpo dormente e dorido pelo constante soluçar, chegou-lhe a sensação acolhedora de um abraço. Uma nova torrente lágrimas molhou-lhe o rosto, o corpo foi sacudido por novos soluços. O abraço ficou mais apertado, cingindo-a num aconchego familiar. 

Instintivamente, num acesso de fúria, tentando manter consigo a dor que lhe queimava a alma e recusando qualquer consolo, Aurora desferiu um estalo na face de Jorge. Primeiro um, depois outro, outro ainda, tentando a todo o custo libertar-se do abraço que ele insistia em manter apertado. Não queria consolo, não queria pena, queria que a culpasse também que a odiasse, que dissesse que era pior mulher e a pior mãe do mundo. 

Quando por fim se cansou, a fúria deu lugar ao vazio. Pela primeira vez, naquilo que lhe parecera muito tempo, Aurora não sentiu nada e deixou-se levar pelo torpor que lhe invadia o corpo. 

- Não estás sozinha. Eu vou estar sempre contigo. Desculpa se falhei. Não estás sozinha. - foram as últimas palavras que ouviu, antes de mergulhar num sono profundo. 

 

Deixai vir a mim as nomeações

 

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Estimado público, prezados leitores e preclaros seguidores, 

Pequeno molusco do género feminino, vem por este meio - e porque ficava deveras dispendioso o uso formal de uma missiva via correios de Portugal - solicitar encarecidamente a vossa mui prezada atenção à nomeação deste humilde, modesto, alegre e supimpamente parvo blogue para os SAPOS DO ANO, na inconfundível categoria de HUMOR. 

E porque deveis vós, minha preciosíssima plateia, nomear-me para semelhante evento? 

Para começar, porque o meu actual estado de concepção de um novo ser humano - possivelmente parvo como sua progenitora, assegurando assim toda uma linhagem puríssima do mais alto nível de divertimento - deveria, com toda a certeza, garantir a minha prioridade na fila que se forma. 

Uma vez que a Magda e o David, certamente por lapso dada a imensidão de trabalho em que mergulham, se olvidaram de incluir senhas prioritárias, vou deixar passar sem referir este percalço às Capazes, contando, para isso, com a vossa ilustre nomeação. 

Não esqueceis, com toda a certeza, quem vos apresentou factos sobre tupperwares, nem todo o desporto que me sai do lombo em forma de sátira. 

Obviamente, também quero entrar neste sublime campeonato para provocar um pouco de mossa na Gorda, fazendo com o prémio lhe custe mais um pouquinho a ganhar. 

E porque, em não sendo totalmente mentira, também não o é uma verdade total, me divirto assim para lá de Saturno com isto. Sobretudo nas campanhas. 

Mui agradecida por toda a vossa atenção dispensada a este assunto, 

 

Conto com a vossa ilustre nomeação aqui - em Humor, relembro. Não me ponham em desporto que para isso já me chega a escola de educação física que frequento. 

Sempre vossa e eternamente parva, 

Caracol

(a imagem faz parte da rubrica 🌺🌺 FRASE MOTIVACIONAL DO DIA 🍃🍃  que vai para o ar na página de Facebook e Instagram desta modesta casa. Visteis o que perdemos por ainda não me seguirdeis lá? 😉)