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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Experiências #5

 

Quando é que a sua vida tinha ficado assim? Quando é que perdera o controlo da situação? Como é que se deixara afundar tanto? Questões que assomavam uma e outra vez à cabeça de Tomás, naquela manhã de segunda feira. Limitava-se a observar as pás da ventoinha que pairava no tecto, fazendo um esforço por não contar número de elos da corrente que o sustinha.

Não sabia quando começara. Talvez quando se empenhava demasiado no trabalho, verificando uma e outra vez todo o seu trabalho argumentativo, para que não existissem brechas que pusessem em causa o seu sucesso na sala de audiências. Ou quando saía em família e dava consigo a tentar descortinar o que pairava nas mentes dos que consigo se cruzavam, buscando olhares de interesse, fazendo leituras corporais que não existiam e divagando no obscuro da mente humana. Talvez quando se entretinha a arrumar a secretária numa tentativa de manter a ordem visível, por oposição ao caos que ia na sua cabeça, colocando as esferográficas todas no mesmo sentido e aparando o bico já afiado dos lápis. Talvez… Não valia a pena, fosse o que fosse que despoletara a situação, Tomás era única e exclusivamente o único culpado por deixar que o dominasse. Sabia que eram coisas da sua cabeça, sem sentido, sem fundamento, mas mesmo assim não se esforçara o suficiente por as inibir.

Quando o psicólogo clinico a que recorrera quase arrastado por Carolina depois de um ultimato amargo o viu, estranhou a sugestão para ser avaliado por um psiquiatra da sua confiança. Ainda ponderou não comparecer na consulta, não estava louco, estava apenas assoberbado em trabalho, stressado do corre-corre diário, enfim, era apenas mais uma entre tantas mentes cansadas e a precisar de férias. Não precisava do psiquiatra para nada, precisava de se meter num avião com destino a uma ilha paradísica e não fazer nenhum durante um mês. Era exactamente isso que o Dr. Henrique lhe diria e era exactamente isso que ia fazer, mal saísse do seu gabinete. Conversaria com a mulher, para que pudesse agilizar o trabalho na estação, trataria de passar todo o seu trabalho ao seu chefe, a miúda entraria entretanto em férias lectivas e teriam um mês sabático. Iria fazer-lhes bem e voltariam desta viagem ainda mais unidos e rejuvenescidos.

- Tomás Carvalho. – a voz rouca trouxe Tomás de volta à sala de espera e, entusiasmado com a perspectiva de umas férias a curto prazo, dirigiu-se para o gabinete luminoso onde um médico com ar experiente e algo austero aguardava a sua chegada.

Atletas Anónimos - o Madu e a Cátia

 

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Não é a primeira vez , nem será a última, muito provavelmente, que vos falo deles.

Aliás, acabam por estar subentendidos em cada texto fit que aqui debito. Consegui convencê-los, saberão os deuses como, a sentarem-se comigo um bocadinho para, desta vez, serem eles a falar. Não se iludam pelo aspecto inofensivo: são o demo dentro de uma sala de ginásio. Respiram exercício, têm uma fonte inesgotável de energia e dão-me cabo do sistema muscular cada vez que lá me apanham.

Tirando isso, até são boas pessoas. 

 

 

 

 

Madu, Cátia, parem lá aí um bocadinho e sentem-se aqui comigo um chiquito, por favor. Comecemos pelo princípio: há quanto tempo se dedicam a isto? Ao exercício físico, no geral.

 

M - Se me perguntares a isto, Fitness, são 25 anos. Já dou aulas desde os meus 18/19 anos. Antes, era praticante de Taekwondo e foi por aí que vim aqui parar. De resto, o desporto sempre foi a minha área e sempre soube que era nisto que queria trabalhar. 

 

C- Pratico desporto desde os 10 anos. Fui atleta de alta competição, na selecção nacional, em Trampolins. Por volta dos meus 20 anos, com a faculdade, deixei de ter tanto tempo para seguir a alta competição, acabando por deixar a modalidade. Foi por essa altura que comecei a treinar em ginásios e que conheci aqui esta peste... 

 

M- E foi a tua maior sorte! 

 

C- ... Comecei a fazer aulas, a gostar mais da coisa e adquirir o conhecimento necessário para poder dar aulas.  

 

Quem vai a uma aula vossa, falando um bocadinho por toda a gente, sente que estão sempre fresquinhos, sempre preparados, sempre activos. Mas, vá, confessem lá: não é sempre assim, pois não? Ou estão efectivamente sempre prontos a mexer o corpinho para motivar outros? 

 

M - Não... Há dias que não apetece, que estamos cansados. Depende também de outros factores: a turma, a forma como as pessoas estão receptivas ao exercício, se estão ou não motivadas... Tudo isso tem importância na nossa própria motivação para dar a aula. Durante a minha formação, havia um professor que dizia que "a última aula da noite, deve ser dada com a mesma energia da primeira aula da manhã". O aluno da noite não quer saber se já demos 5 aulas e estamos cansados, quer energia, desgaste, sentir que está a ser motivado. E isso acaba por nos motivar também.

 

C - Eu ainda estou na fase em que é a qualquer hora e em qualquer dia. Estou sempre pronta!

Por norma sempre que faço o que gosto, ou durante o dia, estou on. Para mim, descansar durante o dia só em caso de situações extremas, mas à noite quando chego a casa passo a off.

E sim, quando entro na sala viro bicho, pois por norma não sou de euforismos e gosto de passar despercebida.

 

Sendo professores de, maioritariamente, aulas de grupo e tendo um nível de exigência bastante elevado, haverá certas coisas que vos tiram do sério ou não? 

 

M - A mim aborrece-me a falta de perfeição. Sempre me irritou, tenho até noção que saí várias vezes prejudicado por isso - chegava a interromper aulas para corrigir um aluno, prejudicando os restantes. Não estou a falar daquele aluno novo, que não sabe ao que vem ou que não tem jeito, estou a falar daquela pessoa que tu repetes e repetes e voltas a repetir e ela só não se aperfeiçoa porque não quer. Isso tira-me um bocadinho do sério, mas tenho que me abstrair e prosseguir com a aula. 

 

C - A mim chateia-me mais a falta de empenho do que a falta de perfeição. A mim irrita-me mais, por exemplo, estarmos numa aula de cycle, a subir uma montanha, pedir para apertar e as pessoas fazerem aquela cara de nhonhinhas (sem carga!) e continuarem só sentadas! Isso irrita-me mais do que uma pessoa que até quer fazer, mas não tem jeito. 

 

Êta melher, agora até fiquei com medo... :P

Quem vos sente numa aula, por "leve" que seja, fica sempre com a ideia que é fácil, que não vos custa e que já é algo inato para vocês. Expliquem-me: como é uma aula do vosso lado?

  

M - É três vezes mais cansativo para nós que para vocês, alunos: temos que passar o exercício, temos que estar no ritmo e na cadência da música, falar com o aluno, corrigir o aluno, saber quantas séries fazemos para a direita e para a esquerda...

 

C - E ser o exemplo! 

 

M - Exacto! Se eu vos peço para pôr carga, eu também tenho que rodar para a direita (alusão ao cycling). Se vos peço para usar 3 kg, pelo menos os 3 kg tenho que ter também, senão que motivação é que estou a passar?

 

C- E sorrir! Às vezes estás a sofrer, já não aguentas, estás toda rota, mas tens que sorrir e incentivar, porque se nós conseguimos, vocês também conseguem! 

  

Ah-ah! Então vocês também sofrem... Às vezes ficamos com a ideia que não vos está a custar. A maioria das vezes, vá.

 

C- Claro! Sofremos tanto como vocês, somos humanos. Nas minhas aulas, sofro sempre com os alunos. Quero que façam sempre mais, mas para poder exigir tenho também que fazer. Sou um bocado masoquista, basicamente.

 

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Se eu vos perguntar qual a aula que mais gostam, aposto que me vão responder todas, portanto, vou fazer esse trabalho por vocês: Madu, em que consiste uma aula de alongamentos? Falas sempre com tanta paixão sobre eles, que presumo seja uma das que mais te preenche...

 

M- Há uma ideia um bocadinho errada quanto aos alongamentos. Talvez a disposição da sala contribua para isso, já que coloco sempre velas no chão, música num volume baixo e média luz. A pessoa acaba por pensar que só vai ali relaxar e respirar, esticar daqui e dali... E não é. Há todo um trabalho de pernas, tronco, costas, abdominal, braços... Tudo! 

 

As aulas de alongamentos - e pilates também - são o pilar para conseguir fazer todas as outras aulas. Quem fizer uma aula destas bem feita, vai adquirir o desempenho necessário para aguentar uma aula de total condicionamento da Cátia, por exemplo. Se calhar vou repetir-me, mas há ideia, errada, que para "ficar forte"é preciso "puxar ferro", mas se não tivermos um trabalho interno bem feito, se não souberes usar o teu corpo e os teus músculos... Nada feito!

 

Cátia, é impossível imaginar-te sem um trampolim aos pés, aos pinchinhos. Fala-nos um bocadinho do jump.

 

 C - Sou um bocadinho saltitante,de facto. :D O jump, para quem sente a aula é fácil de explicar: é uma aula divertida, transpiras à grande, trabalhas pernas, glúteos, abdominais e tem uma forte componente de cardio. 

 

Sendo líderes de uma aula, com todas as preparações que isso acarreta antes e durante a aula, presumo que tenham que lidar algumas vezes com a frustração de alunos. Como o não conseguir executar um determinado exercício, por exemplo. Como tentam gerir ou contornar isso?

 

M - Uso este sistema que, para já, tem funcionado bem: há sempre alguns exercícios que são mais difíceis ou que os alunos têm mais dificuldade e é por esses que começo a explicar e exemplificar, antes das faixas. Só depois prosseguimos.

 

C - Eu tento que ninguém, na minha aula, se sinta intimidado com as dificuldades. Tento levar isso para a brincadeira e ao mesmo tempo fazer frente a esse aluno, para que não desista.

Aquele que se sentem desafiados e gostam disso, acabam por voltar. Aqueles que até vêm ao ginásio, mas não estão para se matar, acabam por procurar outras aulas. Regra geral, apercebo-me facilmente destes segundos e tento, no final da aula, aborda-los e explicar a dinâmica da coisa.

 

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 Chegámos à parte difícil: vocês vivem o desporto, mais até do que viverem dele, arriscaria a dizer. Conseguem classificá-lo numa só palavra?

 

C - Prazer - porque sou mesmo feliz enquanto o faço e porque me desafia diariamente.

 

M - Saúde - o desporto faz, ou deveria fazer, tanto parte da nossa vida, como o dormir, o comer, o beber e o respirar. 

 

****

 

Ufa!

Já fiquei cansada só com esta conversinha. :P Obrigada por terem disponibilizado tempo e palavras - que nem sempre são fáceis quando não se está acostumado com elas - e por motivarem, todos os dias. Nós queixamo-nos, dizemos mal da nossa vida, que não queremos mais, que já chega, mas não passamos sem vocês. E esse é, no fundo, o maior elogio que vos podemos dar. (Mas um bocadinho menos de invenções e cenas maradas, também não era mal pensado. É pensar nisso, está bom?)

 

Fotografia: Nelma Rodrigues/Vitória Coelho | Edição fotográfica: Sandra Carvalho

Experiências #4

Apenas três anos antes, tudo corria sobre rodas. Tomás tornava-se cada vez mais importante na sociedade de advogados onde trabalhava, Carolina subia a pulso a escada do jornalismo, Maria crescia feliz e sadia, sem grandes sobressaltos que não a ocasional otite ou diarreia.A vida de casal ficava-lhes bem. Longos passeios ao fim de semana por Belém, Cascais ou Sintra, uma vida social recatada com poucos mas fiéis amigos, tanto do tempo da escola como provenientes dos diferentes ramos profissionais que ocupavam, jantares a dois em restaurantes intimistas, férias a três nas luxuosas propriedades construídas pelo avô, tudo lhes corria bem. A conta bancária engrossava na mesma medida do sucesso pelo que optaram por colocar Maria num dos melhores colégios privados de Lisboa, no Lumiar, a cinco minutos a pé de casa, um duplex de último andar num dos melhores condomínios da zona. O gabinete de Tomás e o escritório de Carolina situavam-se a dez minutos de carro e os seus horários permitiam fugir ao trânsito, uma vez que Carolina saía de casa bem cedo e Tomás apenas depois de levar Maria a pé ao colégio e tomar o pequeno almoço numa das muitas Padarias Portuguesas que pululavam pela capital. No entanto, uma sombra pairava naquele quadro pintado a cores tão alegres. Havia dias em que Tomás se alheava, fechava no escritório de casa e estudava até à exaustão os adversários que se lhe atravessavam na barra do tribunal. Sempre que se aproximava uma sessão importante, Tomás não raras vezes estava ainda ao computador quando Carolina estava a sair para o seu trabalho. Uma vez e outra, Carolina não questionava os métodos do seu amado esposo, no entanto essas noites em claro começaram a pesar no casamento. A falta de afecto do seu marido fez com que Carolina ficasse receosa de que algo não estava bem e a paranóia instalou-se. Não raras vezes ela perscrutava o telefone dele por sms ou chamadas de outras mulheres. A conta do Facebook estava constantemente aberta no iPad última geração, pelo que também lhe era fácil aceder-lhe. Começou a criar contas em sites de convívio, não com a intenção de trair o seu marido, mas apenas à procura dele. Não era possível que ele passasse doze horas a estudar o adversário pois não? Tinha que haver outra fêmea a querer apoderar-se do seu macho amado, aquele que tantas vezes não se parecia cansar do seu corpo mas que nos últimos tempos mal olhava para ela quando se despiam juntos antes de irem para a cama, nas raras noites em que iam juntos. E sexo... Tinha-o mais com o pequeno vibrador cor de rosa escondido na gaveta da lingerie "especial" que raramente usava do que com o marido e, mesmo quando o tinha, era ela quem quase tinha que o violar, pois ele andava distante e concentrado apenas no seu papel de rockstar dos tribunais.

 

Certa sexta-feira, Carolina pede à mãe para ficar com a pequena Maria durante o fim de semana e telefona ao dono da exclusiva propriedade na Comporta construída pelo avô, a reservar um bungalow para o fim de semana. Recebe as instruções de pagamento e telefona ao marido a confirmar a disponibilidade. A Chamada durou pouco mais que o tempo necessário para ele dizer um sim meio distante e nada animador. Ainda assim, Carolina enche-se de coragem, efectua o avultado pagamento, corre para casa, veste uma das suas ingerias especiais e um catsuit preto tão do agrado de Tomás e após preparar uma pequena mala com os elementos essenciais para dois dias românticos no Alentejo, abre uma garrafa de vinho e despeja um copo para acompanhar um livro enquanto aguarda a chegada do seu amado. Acorda às duas da manhã de sábado toda torcida no sofá e procura o marido pela casa, julgando que ele não a tinha acordado para não incomodar. Ao não encontrá-lo, procura no seu telemóvel uma explicação para o sucedido, mas nem uma sms nem uma chamada. Antes de lhe ligar, liga a pesquisa do telemóvel e procura o telemóvel do seu marido, verificando que se encontra na zona do Chiado e Cais do Sodré em vez de nas Avenidas Novas no seu escritório. Furiosa, telefona-lhe para apenas receber como resposta música de fundo ensurdecedora e grunhidos alcoolizados. Desce até ao carro e dirige-se para a zona o mais rápido que pode, descobrindo-o num dos bares mais reles da zona, com duas jovens seminuas a dançarem com ele, gravata enrolada na cabeça e os colegas de escritório a rirem às gargalhadas num privado próximo. Quase que o arrasta dali para fora e conduz furiosamente até à Comporta, numa vã tentativa de salvar o fim de semana. Efectua rapidamente o check-in enquanto ele ressona no banco do pendura e transporta-o grosseiramente para a cama, nem se preocupando em despi-lo. No dia seguinte ao pequeno almoço, estala a pior discussão de sempre. Ele nem se recordava da chamada dela a confirmar o fim de semana e apenas saiu para se divertir com os colegas. Não lhe tinha ligado porque eram quase dez da noite quando saiu da reunião e calculou que ela tivesse saído com as amigas, como fazia quase todas as sextas-feiras. Pediu desculpa e prometeu não repetir a asneira. As palavras dele caíram que nem uma bomba e Carolina apercebeu-se que aquele homem que aprendera a amar intensa e incondicionalmente já nem sequer se preocupava em dar-lhe uma satisfação quando saía com os amigos. Quando é que ela, sempre tão independente e no controlo das coisas, deixara que o seu casamento, de que tanto se orgulhava, caísse neste ninho de ratos? Não tinha sido isso que o seu pai lhe tinha ensinado, pois não? Recordou as sábias palavras. Primeiro os filhos, depois ela própria, depois sim os homens. Estava na hora de transformar radicalmente a sua vida. Ameaçou Tomás de que, à próxima, desaparecia da vida dele e nem sequer o deixava ver a filha e foi sozinha para a praia. Meia hora depois, Tomás chega com ar desconsolado à praia. Carolina deitada numa espreguiçadeira com um livro como companhia nem olha para ele enquanto se instala ao seu lado. Resolve naquele momento que está na hora de se sentir melhor, mais mulher. Como tal, retira a parte de cima do seu já reduzido bikini e caminha resoluta e bamboleante para o mar, sob o olhar guloso dos homens que estão por perto e o cenho recriminador das mulheres que os acompanham. Nem dez minutos depois Tomás está a seu lado, arrependido e manso como um cãozinho de colo. Ignora-o propositadamente e vai meter conversa com o nadador-salvador, um jovem de vinte anos no máximo com físico de porteiro de discoteca e olhar de ave de rapina para os seus seios cheios e redondos. Duas gargalhadas depois lá está novamente Tomás por perto, a tentar intrometer-se na conversa e a querer recolher o que é seu. É nessa altura que passa o jovem que vende Bolas de Berlim, pelo que com um sorriso sedutor para o nadador salvador afasta-se e caminha como se numa passerelle até ao jovem e pede uma bola de berlim com creme, estende uma nota de dez euros e trinca o doce com um gemido de prazer tão sedutor que faz com que o moço se atrapalhe e se perca no troco que está a fazer, espalhando moedas pela areia.

 

Tomás, fulo, recolhe ao bungalow, chama um táxi e vai para casa.

 

 

 

 

Texto da autoria de Mário Pereira, como seguimento da história que temos vindo a construir.

Experiências #3

- Tu estás parvo, Tomás?! Onde raio foste tu buscar essa ideia estapafúrdia? - não era a primeira vez que isto acontecia, Carolina sentia-se num déja vu, era discussão recorrente e ultimamente, bastante frequente. Mas desta vez, Tomás fora longe demais. 

É claro que ela o tinha visto. Era impossível não reparar no homem soturno que seguia atrás deles, em plena baixa lisboeta. Como um cão que segue uma pista, mas não tem ordem de ataque, Tomás foi no encalço deles, até à porta do hotel, subindo calmamente pelas escadas até ao 13º piso, onde teria lugar a reunião que apresentaria Carolina como diretora de conteúdos do canal em que trabalhava. 

Apostava em como Tomás contara os degraus, enquanto os subia de par em par. Sentiu o olhar dele fixo, penetrante e a sua postura rígida quando se sentou num dos sofás do átrio. 

Mesmo na sala, com a porta fechada e com felicitações contanstes por parte dos colegas, Carolina sentia-lhe a tensão, o nervosismo. Queria muito ir lá fora falar com ele, com calma, mas sabia que não seria escutada e tampouco conseguiria manter os ânimos leves.

A discussão começou no carro, ainda ela não tinha se tinha sentado e metade da direção da estação tinha os olhos cravados na sua figura trémula e ligeiramente envorgonhada. Não era todos os dias que uma mulher daquele calibre tinha um marido raivoso à espera.

- Eu vi Carolina! Não tentes ludribiar-me! Ninguém me contou, eu vi! - apontou-lhe o indicador acusador, como se ela tivesse acabado de cometer um crime.

- Viste o quê, Tomás?! Eu a almoçar com o meu chefe, amigo de longa data e que só por acaso é nosso padrinho de casamento, a subir com ele para o hotel com decorreu a minha reunião de apresentação como diretora de conteúdos?! - gritou, enquanto sentia a fúria crescer, dominando-a. Estava farta daquilo.

- Eu vi como tu olhavas para ele! Como lhe sorrias! Como abanavas a anca enquanto caminhavas à frente dele. Tu estavas a provoca-lo deliberadamente! Tal como provocas qualquer homem que por ti passe. Ou pensas que não sei? Que não vejo as trocas de olhares lascivos, hã? Pensas que sou parvo? Ou queres fazer de mim parvo? - Berrou ensurdecedoramente, enquanto pisava um bocadinho mais o acelador. Estavam quase em casa.

Num gesto automático, Carolina fechou os olhos e esfregou as têmporas. Procurou dentro de si a pouca calma que lhe restava e, quando a encontrou, falou o mais suavemente possível:

- Tomás, o que tu viste foi um almoço entre amigos. Tu sabes que o Luís é um dos melhores amigos do meu avô, viu-me crescer... Que sentido faria andar metida com ele? Pela enésima vez Tomás: não houve, nem nunca vai haver, nada entre nós.

Tomás assentiu, num gesto mecânico e muito pouco convincente. A raiva mal contida era facilmente percebida pela força com que segurava a manete de mudanças.

- Tens que parar Tomás. Não podes continuar com essa ansiedade, com esse nervoso miudinho que dá cabo de ti e te faz ver coisas onde elas não existem. Tem sido recorrente Tomás, acusas-me à frente de estranhos, à frente da miúda e agora à frente dos meus chefes? Qual vai ser a próxima? Vais insultar-me no meio da rua? Apontar-me o dedo e chamar-me de puta no meio de um restaurante só porque cumprimentei o gerente? - deixou que as perguntas pairassem no ar, enquanto ele estacionava o carro à porta de casa, preparando-se para a pergunta fulcral:

- Tomás, diz-me a verdade: tu começaste a medicação, pois não? Tu foste à consulta, ouviste tudo o que o dr. Henrique te disse, aviaste a receita na farmácia, mas nunca chegaste a abrir a embalagem, pois não?

Não se ouviu resposta. Apenas o bater da porta do carro, com uma força que não lhe era habitual. Viu-o subir as escadas de acesso ao apartamento, mas deixou-se ficar sentada, no carro, tentando descortinar o que o silêncio que sussurava. Não, era óbvio que não Tomás não tinha começado o tratamento. Era óbvio que estava pior, que já pouco empenho dedicava ao trabalho, perdendo um caso importante recentemente e não se preocupando em se redimir por isso. As perseguições eram cada vez comuns e embora não fosse agressivo com gestos, era-o em palavras e na postura. O ambiente familiar era praticamente inexistente, havendo apenas um esforço por manter as aparências quando Maria estava presente e mesmo assim, já tinha presenciado duas ou três discussões mais amargas.

Daqui para a frente, caso Tomás continuasse a rejeitar ajuda médica, a situação iria piorar drasticamente. Pensou em Maria e na memória que não queria que a menina guardasse do pai. Pretendia que o visse sempre como o homem que em tempo fora: seguro de si, assertivo, confiante, não este poço de ansiedade e ciúme em que se tinha tornado. Respirou fundo, saiu do carro e seguiu para casa. Ignorou o barulho de loiça a partir que vinha da cozinha, bem como o caos que estava instalado na sala e dirigiu-se ao seu quarto, fazendo uma mala pequena para si e preparando de seguida outra para Maria.

Deixou uma nota em cima da mesa de cabeceira, acariciando ao de leve o rosto da fotografia de Tomás que lá estava.

Decidida, com o coração apertado e esforçando-se por segurar as lágrimas que teimavam em rolar cara abaixo, Carolina saiu de casa. Lá dentro, os gritos continuavam, a loiça estalava e um casamento terminava.

Experiências #2

O texto que segue é a continuação desta história e da autoria do Mário, que tem imenso jeito para a coisa, como poderão comprovar de seguida. 

 

 

 

Tomás era agora uma sombra do homem alto e bem parecido que fora nos seus trinta anos, quando conhecera Carolina. Engordara imenso e deixara crescer uma barba que se cuidada lhe daria o charme trendy da sociedade, mas a vontade de cuidar das suas pilosidades corporais desvanecera-se desde aquele fatídico dia.

Fora, em tempos, um advogado em rápida ascensão numa das maiores sociedades de advogados de Lisboa. Entrara ainda estagiário, acabado de sair da Universidade de Lisboa onde se licenciara com moderado brilhantismo, mas com uma mente sagaz e de raciocínio lógico tão rápido que um dos seus professores o referenciara a Paiva do Amaral, um dos mais brilhantes advogados de defesa do País. Paiva do Amaral esperara-o um dia à saída das aulas, fumando descontraídamente um cigarro e, a um sinal do professor, interpelara-o calmamente, convidando-o para um almoço informal. Fez-lhe algumas perguntas sobre situações de tribunal e sobre como resolveria determinados problemas que fossem colocados pela Acusação. Apanhado desprevenido, Tomás não dera parte fraca e demonstrara que as referências dadas pelo professor não eram desprovidas de conteúdo.

Uma vez na empresa, Tomás começara por, debaixo da asa do seu tutor, proceder ao estudo dos advogados de Acusação, observando-lhes os trejeitos, as hesitações, os bluffs quando os havia e, especialmente, aquele momento em que avançavam confiantes para a estocada final, quando provavam que o crime tinha realmente acontecido numa série de perguntas bem colocadas. Tornara-se, assim, uma espécie de profiler da sua sociedade de advogados, tornando mais fácil a Paiva do Amaral e restantes sócios aceitar novos processos com maior confiança, aumentando a percentagem de vitórias e, por consequência, melhorando o nome da sociedade junto do público em geral. Usara em seguida esse conhecimento adquirido para se tornar, também ele, um fantástico advogado de defesa, desmontando teorias de assassínio e esquemas de lavagem de dinheiro, reduzindo acusações de chantagem e coacção a escombros e tornando-se o advogado preferido de políticos alegadamente corruptos e presidentes de clubes de Futebol.

Conhecera Carolina precisamente na sequência de uma improvável vitória, ao dar uma entrevista a um canal privado. Chamaram-lhe a atenção os olhos verdes penetrantes e os cabelos cor de fogo provenientes do sangue Escocês do avô radicado no sul do país desde a década de 60 como construtor de paraísos para turistas. Terminada a entrevista, abordara-a com a confiança da vitória e convidara-a para jantar, apenas para ver a sua investida rejeitada por aquela jornalista imberbe com a mesma facilidade com que ele, advogado experiente, destruía os oponentes nas salas de tribunal. Continuou a tentar durante meses sair com ela por todos os meios até que um dia o seu telemóvel pessoal tocou e era ela, senhora jornalista Carolina Holster, a convidá-lo para um café depois do jantar, no bar que ela escolhera e à hora por ela pretendida. Nessa noite ele compareceu nervosamente antes da hora e quando ela chegou, sentiu-se como se ele estivesse a ser caçado e não o contrário.

A um namoro conturbado, seguiu-se um casamento numa das propriedades construídas pelo avô no meio do Alentejo, uma lua de mel num dos melhores resorts da Polinésia e Maria, não planeada mas muito desejada, menos de um ano depois. A vida sorria-lhes. Carolina singrava no canal privado e era já a pivô das notícias da hora do almoço, saindo a horas de estar com Maria depois do trabalho, levando-a a passeios e praias, museus e teatros. Tomás era já apontado como sócio para breve, faltando apenas que Paiva do Amaral convocasse reunião geral, coisa que normalmente acontecia uma vez por ano, antes do Natal.

 

 

O fatídico dia situa-se no início da Priomavera, quando Tomás sai cedo de uma sessão de tribunal, consulta a agenda familiar e verifica que Carolina assinalara uma ida ao Museu dos Coches com Maria até às dezoito horas. Sendo ainda três da tarde, dirigiu-se a Belém, entrou na fábrica dos Pastéis e, enquanto aguardava pacientemente a sua vez para comprar um pacote da deliciosa pastelaria, vislumbrou uma mecha de cabelos ruivos acompanhados por um homem vagamente familiar. Olhou melhor e reconheceu ambos. Carolina sorria sedutoramente para o vice-director de comunicação da estação onde trabalhava. O mesmo sorriso que lhe fizera na primeira noite, que terminou na casa dele, com ela por cima, delírio de posse e respiração funda, palavras doces sussurradas e algumas obscenidades.

Aguardou numa mesa que eles saíssem e seguiu-os a distância segura até os ver entrar no Altis e, já a caminho do elevador, ele colocar uma mão de posse a sul da cintura dela, num gesto rápido que lhe provocou uma gargalhada que ele, fora do hotel, não ouviu mas que reconheceu pelo volteio no cabelo que fez a seguir. Ela estava a traí-lo.

 

Experiências #1

6:30 da manhã e o despertador toca na sua habitual tarefa de acordar a casa. Na imensidão do silêncio, o baixo beep contínuo do aparelho assemelha-se a um altifalante em dias de romaria.

Ainda naquele limbo que separa o sono do despertar, Tomás ignora o som. Sabe que Carolina o desligará em breve, enquanto se levanta quase num pulo. É sempre a primeira a levantar-se, enquanto toda a casa vai acordando, aos poucos. O cheiro a café acabado de fazer espalha-se pelas divisões, num último chamar da moleza matinal, arrancando-o dos lençóis a custo. Carolina brinda-o com um sorriso e um beijo mecânico, daqueles automáticos mas que já fazem tão parte dos dias que se torna impossível arrancar sem eles, ao mesmo tempo que prepara a lancheira da miúda. Trocam entre si trivialidades do dia que os espera: as reuniões dos empregos, o que irão cozinhar ao jantar e qual dos dois se despachará mais cedo para apanhar a miúda na escola.

As manhãs são uma correria, mas aqueles minutos em partilham o café encostados ao balcão da cozinha parecem estender-se no tempo. São o motor para o resto e talvez o único momento em que estão ali e se escutam mutua e efetivamente. À luz dos primeiros raios da manhã, a cozinha adquire uma luminosidade amarelada, quente, confortável, que contrasta com o frio que se faz sentir lá fora, num tipico dia de dezembro. Perdido nos seus pensamentos, Tomás dá consigo a pensar que os anos foram generosos com a mulher. Não era uma brasa, tampouco tinha o fulgor de outros anos, mas havia uma certa chama que ainda lhe brilhava nos olhos quando sorria. Tinha pequenas sardas à volta do nariz que se acentuaram depois da gravidez de Maria, que ela carinhosamente tratava por "marcas de guerra" e que muito raramente tentava disfarçar com maquilhagem. O cabelo mantinha o vigor e a vida própria que sempre teve, tal como a sua personalidade intrincada e volátil. Mesmo assim, sabia que não poderia ter feito melhor escolha quando, naquela tarde de verão lhe pedira para passar o resto dos dias a seu lado. Nunca, nem na pior das discussões, se arrependera de ter tomado tal decisão. Como se um passe de dança ensaiado e ritmado se tratasse, terminam o pequeno almoço e colocam a loiça na máquina. Tomás vai acordar Maria, enquanto Carolina termina de se arranjar. Mais uma manhã normal e comum, numa banal segunda feira.

O despertador toca de novo. Letargicamente, Tomás cala-o pela quinta vez nessa manhã. O visor de ponteiros luminosos diz-lhe que passam quinze minutos das sete, as memórias dizem-lhe que já há muito deveria estar a pé e trazem-lhe às narinas o cheiro de um café que ficou por fazer. Não sabe quando ou se voltará a levantar-se. Sobrevive apenas entre o vazio da casa e alegria das memórias, dominado pela saudade e queimado pela dor. Fecha de novo os olhos, numa tentativa fugaz de que o sono lhe leve o presente e lhe devolva o passado. Desliga de vez o despertador, antes que volte a tocar e o arranque de novo do sonho a que pretende voltar. O sonho do que fora, em tempos, a sua vida.

 

O texto que acabaram de ler é totalmente ficcionado e inventado ppela minha pessoa. Uma experiência incentivada por uma amiga querida que acredita na minha mão para as palavras, um bocadinho mais do que eu. :) E vocês? Sim, não talvez? Digam cenas!:)

M - Momento mais importante da tua vida literária

 

Hmmm... Pergunta díficíl. 

Diria que todas as vezes que começo um novo livro. Por ser exatamente isso: um recomeço, uma nova história, personagens novas... Gosto de (re)começos. :)

 

 

Durante 26 dias, eu,  Magda, a Just, a Maria João Covas, a Sofia Gonçalves, a Alexandra, a Drama Queen, a Gorduchita, a B♥, a Sandra.wink.winka Fátima Bentoa Happya Carla B. e a Princesa Sofiaresponderemos a 26 perguntas literárias por ordem alfabetica.  Encontramo-nos às segundas, quartas e sextas, pelas 14:00, até meados de outubro.responderemos a perguntas sobre livros por ordem alfabética. Encontramo-nos às segundas, quartas e sextas, pelas 14:00, até meados de outubro.

L - Livro mais longo que já leste

 

Julgo que "A Filha do Capitão", de José Rodrigues dos Santos. 

 

 

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K - Kobo ou Kindle? Kindle ou livro físico?

 

 

 

 

 

Livro físico.

Sempre e para sempre. 

 

 

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O meu filho tem dois anos e não sabe as cores

Ou melhor, sabe, mas apenas em algumas situações que já explico. 

Caracolinho tem quase três anos. Fala pelos cotovelos, trepa, corre e salta. Atrapalha-se a contar até 5 e ainda confunde as cores, bem como a distinção entre o maior e menor - o relatório de avaliação que recebi no final de junho, diz que o miúdo tem dificuldades na matemática. 

Para começo de conversa: para que raio precisa um chavalo de dois anos e meio, na altura, de perceber matemática? Para que raio quero eu um relatório de avaliação pedagógica semestral? E porque raio está o mundo, a sociedade e o ensino tão preocupados com isso? 

À minha volta, vejo pais a quererem que os filhos saibam inglês desde cedo. Que contem até 1500 desde os 10 meses. Que sejam mais, melhores. Do que quem? Do que os próprios pais? Do que o vizinho do lado? Juro que não entendo esta obsessão pelos resultados, pelas metas curriculares impostas desde cedo.

Como disse, o meu filho não sabe, ainda, identificar todas as cores. Nem em português, nem em inglês, nem em jugoslavo.

Sabe, por exemplo, colher morangos, sabendo que só deve colher os vermelhos. Aproveitamos para contar os que trás na mão, mas se encrava no 3, não faço grande drama. Sabe que, na cerca dos animais, há dois gansos brancos, um coelho cinzento, uma cabra branca e uma cabra bebé, cinzenta também. Sabe que o Berlinde é castanho e que o Cusco é preto como a noite. É capaz descer as escadas, sem ajuda, e abre o portão sozinho, todas as manhãs (não, não tenho portão elétrico é tudo manual). Sabe que as ervas à volta das flores não devem lá estar, embora às vezes se engane e lhes arranque uma folha. Ou duas. Sabe bater ovos com a vara de arames e adora cortar massa para bolachas. Diz-vos de cor que "o papá é chato, a mamã é linda, o Mário é espectacular, a tia Sara é gorda e Cláudia vai levar tau-tau", lengalenga ensinada por senhora sua mãe, obviamente.

Não, não quero fale inglês, não quero que saiba contar até 20 e pouco me importa que não identifique ainda as cores.

Quero que corra, que brinque, que pule, que descubra e que explore. Quero que cresça feliz e não a achar que tem que saber tudo. tem muito tempo para aprender matemática e para desenvolver o gosto por línguas. Não agora e não aos dois anos e uns trocos.