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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Pequena Bola D'Unto

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Quando descobri que estava grávida, contava já com 7 semanas de gestação em cima do lombo.
O que significa, em poucas palavras, que fiz o Bravos & Bravitas Run e a Corrida Milionária completamente prenha.
Bonito.
Se isto não contar como vacinas, não sei o que mais pode contar.
Na semana seguinte à Corrida Milionária - e depois de ver esta foto onde me benzi ao contrário quando vi o tamanho do meu perímetro abdominal - decidi fazer uma semana de low carb com algum jejum intermitente. Pelo meio, foram aulas de HIIT, circuito funcional e abdominais. Sendo que nesta última, senti alguma dificuldade acrescida nas pranchas.
O homem sugeriu que poderia estar grávida. Eu disse que ele estava maluco e que tinha bebido demais ao jantar, onde, por mero acaso, eu tinha feito o mesmo.
Várias pessoas me perguntaram o mesmo. Eu dizia sempre a mesma coisa: "Não, isto é mesmo unto. Nem com dieta lá vai. Abusei mesmo muito dos doces nas férias." #SoQueNão
Fiz o teste confiante no negativo e focada em manter zero farinhas e zero açúcares até ao final do mês. Dei comigo a rir à gargalhada com um positivo nas mãos.
Chamei-lhe Pequena Bola D'unto desde o princípio, ainda antes de saber que não era (só) gordura. Achei giro e alcunha ficou. Para alguns é Bolinha D'Unto, mas eu prefiro nomes pomposos e acho o original mais fixe para ralhar.
Pequena Bola D'Unto conta agora com 13 semanas, rastreios normais e baixo risco, dá-me conta de todo o sistema digestivo, limpou-me o cérebro e põe-me a dormir às 10 da noite. Quer eu queira, quer não queira. Eu já o avisei se continua ass fica de castigo e não brinca com as coisas do irmão, mas o sacana faz ouvidos de mercador e ignora-me firmemente. Cheira-me que vai ser pior que o irmão e eu só peço que me valham os deuses todos da parentalidade positiva, negativa, neutra e o diabo a sete. E foda-ses. Os foda-ses todos. À maioria verbalizados em pensamento e de língua mordida. 😜

Desafio dos Pássaros - Tema 1

 

- Então S' Alberto, que lhe aconteceu agora, homem? - perguntou Toninho, dono do café onde Alberto tomava a bica, todas as manhãs. 

- Olhe Toninho, é este tempo: ora chove, ora faz sol e o nevoeiro dá-me cabo da âncora, fico aqui a ganir de dores. 

- Isso é fruto da idade, o S'Alberto já vai nos setentas... 

- Pois Toninho, mas as dores sou que as sinto. Olhe, sabe o que lhe digo? Problemas, só problemas. 

- Não seja assim, homem! 'Tão já viu que há gente bem pior? Olhe, a Almirinha, por exemplo. 'Tão não é que partiu a bacia porque escorregou nas escadas? Está pr'a lá toda desconchavada. 

- A Almirinha está desconchavada? 

- Muito S'Alberto. Os médicos nem sabem quando vai ter alta do 'ospital. 

-  Oh, minha vida! 'Tão agora quem é que me vai lá casa ajudar a minha Alzirinha nas lides de casa? - suspiro - Problemas, só problemas. 

- Logo arranja alguém para isso, não fique tão carrancudo homem! Qu'importa é qu'Almirinha melhore, não é? 

- Pois, pois... 

- Olhe, quem também está muito mal é o Zé da venda. 

- O Zé? Qu'lh'aconteceu? 

- Consulta de rotina, o médico mandou fazer exame à  prósteta e olhe... Câncaro. Já começou a quimoterapia, coitadinho, disse-me a Ti Luzia, que o homem está um farrapo. 

- Valha-me Deus! 

- Já viu? Há gente bem pior, num é S'Alberto?

- Pior? Pior Toninho? Então agora com o Zé da venda assim, quem é que me vai levar as mercearias a casa? A Ti Luzia não tem carta... Estou para ver como vou resolver. Problemas Toninho, só problemas. 

 

18 anos...

Magda perguntou se nos lembrávamos onde estávamos há 18 anos. 

Sinto-me um bocadinho como a Rose, do Titanic, mas a verdade é que me lembro perfeitamente. 

Tinha 12 anos e estava com o meu pai no centro de saúde. 

Lembro-me de haver barulho, aquele murmurar constante de uma sala de espera supostamente silenciosa. Lembro-me da sala ficar, de repente, queda e muda. Voasse um papel e ninguém se mexeria para o apanhar. 

Atrevo-me a dizer que ninguém respirou e todos, sem excepção, fixaram o ecrã da velha televisão. 

Não percebi muito bem o impacto daquilo, afinal era só um acidente, até aparecer em letras garrafais o título "3a Guerra Mundial". 

Foi só aí que falei, perguntando ao meu pai que, incrédulo, ia dizendo "Foda-se" repetidamente: 

- Não é verdade, pois não? Não vai haver mesmo uma guerra, pois não? É impossível haver outra guerra mundial, não é? 

Não obtive resposta coerente. 

Recordo-me perfeitamente do pânico que senti pela possibilidade de haver uma guerra que nos pudesse envolver, de alguma forma. Na minha cabeça, passaram flashes de imagens dos campos de concentração, da guerra do Vietname e de tantas outras que fomos colecionando ao longo dos tempos. 

A Magda diz que não tem medo, que se recusa a viver com medo. 

Eu tenho medo e vivo com medo. Que a história se repita, que sejamos tolos o suficiente para permitir que isso aconteça e, sobretudo, que percamos a pouca humanidade que nos resta. 

A Magda não tem medo, eu tenho muito medo. A semelhança é que não deixamos que o medo nos controle e impeça de viver, usufruindo daquilo que vida pode ser. 

E tu? Também tens medo? 

Pré-Desafio de Escrita dos Pássaros

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...Ou de como eu só me meto em trapalhadas. 

Porquê que me meti nisto

Ora bem, para começar, porque faço parte do bando. Não sou pássara, comajoutras, sou só passarinha. (Ficou estranho, não ficou? Mas é só uma alusão à...hmm...idade. Não melhorou. Sigamos.)

O meu estatuto de ave, garantiu-me acesso livre a esta enrascada, por isso... Cá estou eu. 

A segunda parte, sendo mais sincera, é que o blogue tem cada vez menos espaço na minha vida digital. Ora porque o facebook está mais à mão, ora porque as publicações são curtas e não acho que façam sentido aqui, ora porque me esqueço. E eu queria, mesmo, voltar a estar mais activa por aqui, por isso este desafio que pareceu-me o ideal para retomar, aos pouquinhos, a este espaço. 

Depois, porque estou numa fase em que me sinto limitada - um dia destes conto - parece que nada flui do meu cérebro como antes e não me sinto a mesma idiota que era há uns meses. O desafio acaba por ser uma alavanca para imaginação que considero já perdida e uma forma de a trabalhar um pouquinho mais. Ou então não, desisto e fico a meio. Logo se vê. 

Outro ponto que me levou a meter nisto: inscrevi-me, recentemente, no campeonato de escrita do Chagas Freitas. Ia cheia de vontade, cheia de ideias, toda eu a maior da minha rua e... Fiquei desiludida. Não porque não ganhei nenhuma jornada, mas por que (e eu sei que isto vai parecer presunçoso, desculpem) não achei que nenhum dos textos vencedores fossem melhores que os meus. Acabei por não perceber em que consistiam as avaliações, a motivação caiu tão a pique como a minha tensão arterial em dias de 38º e dei comigo a desmarcar presenças. Daí a achar esta ideia da Magda (já tinha dito que a culpa foi da Magda, certo?) brilhante, foram....Três microsegundos. 

Et voilá. Cá estamos nós, anos depois do primeiro contacto unjecojoutros, a mexer novamente com a bloga. E caraças, se isso não é bonito, que eu não tenha lacrimejado uma vez quando vi o número de inscrições. 

A culpa é da Magda. Toda da Magda. 

 

Pássaros em Debandada

Há anos - não sei precisar quantos,  mas estou em crer que desde sempre - há anos, dizia eu, que falo, ou escrevo, vá, diariamente com a Magda, a Alexandra, a Mula, a Just, o Silent Man, a Fatia, a Drama e a Cunhada. Nunca os vi fisicamente, mas são tão parte dos meus dias como o café com gengibre para acordar. 

Já devem ter ouvido falar na gente: somos a Passarada. Porquê? Perguntem à Magda, não se m'alembram todos os detalhes. 

Se há anos que falamos todos os dias, numa caixa de mensagens que roça o caos, correm os mesmo dias desde que prometemos jantar todos juntos. 

Nunca se proporcionou. Ora porque um não podia, ora porque outro trabalhava, ora porque estamos geograficamente longe, ora porque alguém se cortava (culpada!), um sem fim de cenas que levaram ao não ajuntamento da malta. 

Há dias, recebi uma mensagem do Silent Man dizendo que viria ao Porto, por isso queria jantar comigo. Siga, tudo muito bem. 

O jantar entre famílias - eu assumi que traria a dele, já que o meu homem e o Caracolinho também iam - ficou combinado para as 20:30, o que me dava tempo para arrumar a casa. 

Ora, o que é que me deu para fazer? Dar sete voltas e meia à roupa do puto, revirando caixas e sacos, vendo o que ainda é grande, o que já está peqeuno, o que deve ficar mais à mão e assim por aí a adiante. 

O que é que isto deu? Num caos desde o corredor até ao quarto do miúdo. 

O que é que eu detesto? Casa desarrumada quando recebo visitas. 

Quem é me bate à porta quando eu estava prontinha a despachar as Testemunhas de Jeová da volta das 17?  A Magda, o Silent Man e a Alexandra. 

Ia tendo um enfarte do miocárdio, três AVC's e nem sequer tinha queijo, nem fiambre, para o lache. Vá lá, pelo menos tinha manteiga. Sendo que a Alexandra é vegetariana... Também tinha manteiga de amêndoa. Menos mal. Até porque vieram mais carregaos que o burro dos meus vizinhos quando regressa da feira. 

Quem ficou numa excitação foi o Caracolinho, que adora conhecer gente nova e não lhes largou mais as asas, sobretudo da Alexandra. 

Ainda tentei convencer aqueça malta que podíamos perfeitamente jantar lá em casa. Eu fazia o jantar, na boa e era excusado irmos para um restaurante. 

Não levei a melhor, claro. E ouvi meia dúzia de vezes "Queres sentar-te aqui ao pé de nós?", o que m'enervou um bocado, porque além de eu estar quieta, é À NOSSA BEIRA que se diz. enfim, malta de Lisboa que não percebe nada, para eles é tudo "MAGNÍÍÍFICO", com vários acentos do Í, em vez do bom e velho MARABILHOZO. Sotaques à parte, lá fomos jantar. 

Ora, quem mais estava para a jantar? 

'Xatamente, a Just e a Mula. 

De repente, em menos de duas horas, passamos de um jantar entre dois bloggers, com respectivas famílias, para um jantar a 4 bloggers que rapidamente se transformaram em 6, mais as respectivas famílias. 

E foi... Espetacular! Somos muito bons mas palavras, mas somos ainda melhores nas conversas e parvoíce ao vivo. Foi um peso saber que, no fundo, somos todos tão compatívelmente malucos ao vivo coml aparentamos no virtual. 

Não sei como a Alexandra, a Magda e o Silent conseguiram organizar uma surpresa semelhante, sozinhos e sem se enganarem nas caixas de mensagens. Devem ter sido uns dias bastante aflitivos... 🙄

Ficaram a faltar a Fatia e a Drama, que não conseguiram estar presentes. Contudo, estiveram sempre, mesmo não estando presencialmente. Já a Cunhada, que também não esteve, não se livrou de uma vista à médico no domingo seguinte pela fresca. Depois de me assegurar que os Pássaros do centro e sul tinham um bom pequeno almoço e reforços para a viagem, que eu bem sei que em Lisboa e Coimbra não há cacetes nem regueifa doces como aqui. 

Faltaram os espinafres, mas isso... Fica para uma próxima. 

Atletas Anónimos - Tiago

 

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Tiago, segundo mais velho num total de 8 irmãos, encontrou no desporto o escape para uma família conturbada e a força necessária para ultrapassar algumas fases menos boas que a vida lhe deu. Um entrevista que se revelou mais pessoal e atribulada do que as desportivas que costumam aparecer por aqui, mas que vale (muito!) a pena ler. 

Apertem os cordões e sentem aqui ao pé de nós:

Desde que me conheço faço desporto. Era uma forma de fugir dos meus problemas em casa – a minha mãe era ex alcoólica e isso trazia muitos problemas para casa.

Imaginava o desporto como um trampolim, sonhando ser um jogador de topo. E pensava assim poder ajudar meus irmãos.

Fale-nos um bocadinho sobre essa época no futebol.

A minha primeira época num clube de futebol foi em 2003/2004, no Futebol Clube Cesarence e começou apenas porque o pai de uma amiga me ofereceu boleia: o filho dele jogava lá e ele ofereceu se para me levar.

Acabei de por conseguir ficar porque os treinadores gostaram de mim.

Antes disto, do futebol, fiz ainda uma época de atletismo, onde ganhei alguns troféus e um corta-mato escolar. Era capaz de jogar futebol à segunda, à quarta e à sexta feira. Treinos de atletismo à terça e quinta feira. Jogar futebol com amigos sábado à tarde e jogar pela minha equipa ao domingo.

Tudo para fugir de casa, mas sempre me preocupei com meus irmãos mais novos: levando-os à escola e cuidando deles.

Neste momento, faço em média três treinos semanais.

 

O que mais o marcou durante essa época?

 

O momento que mais me marcou na vida, foi aos 14 anos, no mesmo ano da morte do Feher, senti-me mal a jogar futebol com amigos. Estaríamos no mês de Outubro de 2004, um sábado.

Sendo eu uma pessoa um pouco cismática, comecei alimentar um medo de ter algo e começou uma longa caminhada contra uma depressão, onde também se juntou a ansiedade que me fazia ir parar ao hospital 2 a 3 vezes por semana. Nunca me foi detectado nada, mas o medo de me acontecer alguma coisa estava sempre ao virar da esquina.

Lá consegui fazer mais 2 épocas, lutando contra meus medos, porque tinha o medo maior de deixar os meus irmãos sozinhos.

 

Quando terminou o futebol, o que seguiu?

 

Aos 17 anos, optei por deixar o futebol. Tinha começado a trabalhar para ajudar em casa, não tinha transporte para os treinos… Mas sei que, lá no fundo, foram os meus medos que ganharam sobre mim.

Mais tarde, devido a problemas em casa, acabei por ir viver com a minha avó, até que o meu pai adoeceu com tuberculose.

Senti que tinha de fazer algo por ele visto ter deixado a minha casa, pelo que, durante 3meses, todos os dias, fui ao hospital visitá-lo. Falhei 1dia…

Isso fez- me não pensar tanto na ausência do futebol.

Graças a Deus, ele ainda é vivo hoje.

Entretanto, passei a viver sozinho arrendando uma casa, trabalhando na restauração em part-time e numa fábrica a full-time.

Sem tempo para pensar nos meus medos.

Até que em 2014 me foi diagnosticada tuberculose.

Fui forte e superei. Só aí comecei a ver o quanto tinha sido irracional em relação aos meus medos. Só me apetecia sair dali e voltar a correr.

 

Conseguiu voltar ao desporto?

 

Sim, graças a Deus. Apesar de na recuperação ter feito 4 pneumotorax, tendo inclusive que ser operado.

Passado algum tempo, retomei uns jogos de futebol com amigos.

Numa semana de férias, fiz uma corrida que surgiu por brincadeira.

O vício voltou e então decidi mudar de vida. Deixei a restauração, que me ocupava algum tempo, arranjei um emprego que me permitisse fins de semana livres para fazer algumas provas, como por exemplo: uma meia maratona em 1h36 e um terceiro lugar nos Trilhos Termais em Espinho, na distância de 15km, em junho deste ano. Acho que, no final, quem luta sempre alcança.

Por fim, pedia-lhe que classifica-se o desporto numa só palavra e justificasse a resposta.

 

Resiliência - porque tenho superado algumas pequenas batalhas. A maior contra mim próprio as vezes.

 

                                                                *      *     *     *     * 

 

Muito obrigada ao Tiago pelo tempo que dedicou a contar-nos um pouco da sua história. 

Se quiserem partilhar as vossas histórias desportivas e participar nesta rubrica, podem enviar e-mail para: accaracol@sapo.pt

Plágio para totós

Hoje, quis a minha dor de garganta que ficasse pelo sofá à hora de almoço, em vez do habitual treino. Como tal, passou-me pelos olhos a publicação de Sei lá eu ser mãe, sobre a bebé Matilde e os mais recentes sururus. 
Li, gostei a fui à minha vida. 
Ora, qual não é o meu pequeno espanto, quando vejo o mesmo texto replicado num grupo de mães a que pertenço. 
Não partilhado, mas copiado e colado, sem qualquer crédito ao autor original. 
Cúmulo: mesmo depois de vários alertas sobre a autoria do texto a pessoa diz que "ah e tal, não é meu, mas como estamos num grupo não faz mal". 
Ai foda-se, pró caralho, que até falo mal. 
Alguém acrescenta a cereja "credo! Até parece que o texto vai ganhar um Nobel". 
Ai foda-se pró caralho, que até falo mal. 
Eu acredito, mas acredito mesmo, que grande parte dos copiar/colar não sejam maldade. Acredito que a pessoa não veja mal nenhum, que não tenha pensado, de todo, que está literalmente a gamar. Por isso, no mínimo, o que eu gostava mesmo muito que acontecesse nesses casos seria:

Bárbara:

- Olhe, o texto de facto é muito bonito, mas esqueceu-se do autor. 


Gertrudes:

- Oh, cabeça a minha! nem pensei nisso, vou já editar e colocar os créditos.

E ambas seguiam felizes e contentes, facebook fora. 
Claro que o mais fácil e prático seria a partilha, mas enfim a malta gosta de ir a Braga para dar um salto a Lisboa e pela-se por mais trabalho. O Markito é que pensou mal quando criou aquele botão. Na realidade aquilo é só um bibelot do facebook, um pequeno mono de estimação.

Mas não é isso que acontece. A malta não faz por mal, é alertada, assume e não corrige. 
Jamais entenderei as pessoas.

Por isso, e porque fiquei deveras com possuída pelo deus da honestidade e dos bons costumes, elaborei um pequeno guia para saber o que é plágio e porque não o devem fazer:

1) Pegarias numa peça de uma vizinho, coloca-la-ias na tua casa só por ser bonita, sem dizer que era o do Miguel do 3o esquerdo? Não, pois não? É a mesma coisa. Só que aqui o vizinho não vê que lhe gamaste a peça, portanto, não pode reclamar.

2) O teu filho/a escreve um texto numa folha em branco. Um colega surrupia e entrega a um professor como sendo seu. Bonito, não é? É exatamente a mesma coisa.

3) Escrever DÁ TRABALHO, porra! Muitas vezes é mesmo só isso dá: trabalho. E outras tantas vezes, a única coisa que o autor recebe é o reconhecimento, que ainda não paga contas, que eu saiba, mas que é sempre bem-vindo.

4) Lá porque há textos bons, não quer dizer que ganhamos todos o prémio Nobel. Usar esse argumento para copiar/colar é só estúpido. (Este é uma espinha no meu esófago, foda-se que lata! )

5) A honestidade, os bons valores, a boa moral e a integridade ainda cabem no Facebook.

6) A Gertrudes copiou, sem maldade. A Esmeralda copiou, sem maldade. A Genoveva copiou, sem maldade. A Rosa copiou, sem maldade. A Antonieta copiou, sem maldade. Até o Abel copiou, sem maldade, mas agora não se sabe de quem é o texto, quem é que queimou os neurónios à procura de sinónimos e palavras e até a Tia Aurora agora diz que é dela.

7) Não faças do botão PARTILHAR um bibelot.

Sê responsável, partilha as publicações. Diz não ao plágio.

E agora?

Foi impulsivo, assumo, deveria ter pensado melhor, delineado uma estratégia, mas... não há uma lei qualquer da vida que diz que devemos esquecer os planos de vez em quando? Que devemos ser espontâneos, em vez de certinhos? 
É, não é? Então pronto, fiz a coisa certa: limpei o carro. 
Até aqui nada de mal. O problema é que ele agora cheira a pinho. E eu faço alergia ao pinho. E não o sinto como meu. Já olhei três ou quatro vezes para o interior das portas e nem um lenço de papel usado à vista. Nem uma embalagem de bolachas vazia. NA-DA. 
E o chão? Sabiam que o chão do meu carro é preto? Também não me lembrava. Já há muito tempo que me habituara ao camel da areia. E pedras? Nem um calhauzinho debaixo do tapete. Nem uma pequena rocha no assento do passageiro. Nem... Nem um pedaço de granito ao pé da manete das mudanças. Está tudo limpo e imaculado e cheira a pinho. Já disse que cheirava a pinho? 
O problema, para além de ter sido estúpida o suficiente para aspirar areia e não a vender para as obras ilegais, é que estou com problemas de ligação ao bólide. Sinto que lhe fiz um bem maior, mas já não me sinto ligada a ele. Não o sinto como meu. E isso dói, bem lá no fundo, ao pé dos calcanhares. Ah, não, espera, isso é só o tapete que ficou dobrado debaixo do acelerador. Bom, mas dói e temo que a nossa relação não possa vir a ser a mesma de antes. Temo que agora me dê máximos, cada vez que não sacudo os pés do miúdo quando voltamos da praia (e os meus também...). E se me buzina aos ouvidos quando enfardar pipocas lá dentro? Ou batatas fritas. Pior: se lhe dá uma síncope quando sentir o caroço de uma ameixa, embrulhado às três pancadas num lenço de papel, abandonado sabe-se lá até quando no interior da porta. 
E se... E se... Se o meu carro, de repente, se transformar no meu homem? 
Pronto, está decido. Vou obrigar o miúdo a brincar com terra na mala. Só manter um certo nível de charme naquele carro. 

Experiências #16

Vazio, escuro e sem fim à vista. Mais uma mentira da humanidade: prometem-nos que a morte é branca, serena e luminosa, como uma sala que recebe o amanhecer todos os dias, a todas as horas. Ninguém fala do negro, da tormenta e da culpa. Talvez por ser mais fácil assumir que vamos para o nosso melhor local e não para o nosso pior buraco. Não é assim em vida? Porque haveria a morte de ser diferente?

Perdida no gigante corredor escuro, Carolina tentou, uma e outra vez encontrar o caminho de regresso. Não havia. Era como se estivesse a mergulhar no mar alto, atingindo aquele ponto em que já não se sabe se se nada em direcção à superfície, se pelo contrário, se vai afundando devagarinho. Caminhou mais um pouco no chão vazio de cor, suspensa no nada, até que um pequeno ponto luminoso, como um pequeno e tímido pirilampo, tremeluziu à frente. Correu na sua direcção, num sprint que rapidamente lhe tirou o fôlego. Outro pontinho minúsculo de luz juntou-se ao primeiro. Carolina lançou-se novamente para a frente numa corrida desenfreada. Não lhe parecera tão longe da primeira vez. Talvez no inferno as pessoas ganhassem mais acuidade visual, uma espécie de superpoder para atormentar, ainda mais, as almas em desespero.

Não sabia o que fizera para ter semelhante fado. Tentara sempre fazer o seu melhor, escolhendo a menos má das hipóteses. Não prejudicara ninguém, não atropelara ninguém para chegar ao topo. Todos os meses contribuíra para causas solidárias, umas ezes mais outras menos. Não se metera em vidas que não eram da sua conta. Onde errara? O que fizera para merecer este lugar? Se todas as suas escolhas foram feitas com consciência, se todas as noites conseguiu adormecer sem peso na alma, se sempre fora boa pessoa… Porque veio aqui parar?

Tomás.

Não, não podia ser. Fez tudo o que podia por ele. Aguentou o casamento até onde pôde, mesmo quando já não havia qualquer relação e ambos se odiavam: ela porque ele se recusava a seguir o tratamento, ele porque estava em crer que ela o manipulava. Terminou o casamento, porque já não suportava mais uma relação tão conflituosa e tão cheia de rancor. Ninguém a podia culpar por isso.

A não ser ela própria.

E, sendo completamente sincera consigo, havia uma pontinha de culpa a querer pular do lugar recôndito onde permanecia guardada? Não a culpa de querer uma mudança  segura numa vida sem norte. Não a culpa de ter agido em prol da sanidade mental dela e da filha. A culpa não fora de Carolina, a doença e consequente decadência Tomás, não eram culpa sua. 

Mas o depois talvez fosse. 

Quantas chamadas por dia recebia do ex-marido? 

Quantas atendia? 

A quantas mensagens respondeu? 

Quando fora a última vez que se dignara a falar com ele? 

Ele tinha-a magoado. Muito. Garantira que estava mudado, que as coisas estavam finalmente a encarreirar, que até tinha arranjado um emprego. Tomás dissera-lhe isso numa mensagem, depois de ter tentado uns quantos telefonemas em vão. Carolina nunca respondeu. Ou pelo menos, não a esse assunto em concreto, talvez lhe tenha enviado uma mensagem, uns dias mais tarde, informado o dia e a hora a que poderia estar com Maria. 

Era essa a culpa que sentia: de não lhe ter dado uma segunda oportunidade, de não ter acreditado que era possível mudar, de não estar lá para ele, para comemorar um emprego simples num supermercado ou para assistir ao seu esforço de retomar o fio à vida que deixara suspensa. Toda a gente merece uma segunda oportunidade, não era isso que apregoava aos sete ventos, nas suas reportagens? 

Determinada a esquecer a culpa por momentos, Carolina focou novamente os dois pontinhos de luz na escuridão que a circundava. Já não eram só dois pirilampos. Eram vários, encaixados entre si, formando um pequeno foco luminoso. Correu para a luz, sem perceber que não se movia do lugar. As pernas rolavam, uma atrás da outra, numa passada ofegante e desesperada. A escuridão parecia passar a alta velocidade, mas a pequena lanterna manteve-se sempre no mesmo lugar, sempre à mesma distância. 

Cansada, Carolina deixou-se cair no chão de nada, tentando conter as lágrimas que se formavam. 

Lá longe, na pequena lanterna, outros pontos de luz juntavam-se aos anteriores. Como um retrato que se iluminava pixel a pixel.

Ao cabo de uns minutos, já não havia uma lanterna, mas um retrato iluminado de um rosto pequeno e redondo. 

Sem o seu consentimento, as lágrimas rolaram cara abaixo e o peito abriu-se num grito mudo. 

Fitou o rosto da moldura, murmurando um sem número de desculpas, entre uma nova torrente de lágrimas. 

Correu novamente para ele. Novamente, não saiu do lugar. 

Lá longe, o rosto sorridente e alegre parecia fazer troça do seu esforço. 

Carolina percebeu então que o mais a amargurava, não era a culpa, n as ações, nem o que de pior tinha feito na vida. 

O que realmente lhe rasgava o peito de dor, era nunca mais conseguir alcançar aquele rosto, nunca mais o ver ao vivo, sentir a pele suava debaixo da sua mão. Ver o brilho no olhar quando ria de entusiasmo. Eram tudo prazeres que já não lhe estavam destinados. 

Como se a tivesse escutado, o rosto mudou de expressão para uma gargalhada muda. Era a personificação da felicidade em estado puro e tudo o que de melhor o mundo pode ter. 

Era Maria. A sua Maria.