Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Experiências #13

Maria estava uma crescida do alto dos seus seis anos. A sua vida mudara radicalmente nos últimos 10 meses, mas isso não a impedira de obter bons resultados no primeiro período escolar. Aprendia rapidamente e devorava a informação que a professora debitava na sala de aula. Preferia os lápis às bonecas de outrora e os conjuntos de loiça pequenina foram substituídos por livros com pequenas histórias de fácil leitura. Gostava de ler alto e com um público de bonecos bem alinhado e atento, não gostava que a interrompessem e era por isso que preferia um público inanimado a um público vivo – os adultos à vezes esquecem-se que para aprender também é preciso errar, passam a vida a corrigir pequenas falhas e estão sempre cheios de pressa: ou têm que fazer o jantar ou preparar alguma coisa que não pode esperar.

 

Nesses momentos tinha saudades do pai. Passava mais tempo fora de casa que dentro dela é certo, mas quando lá estava e lhe dedicava tempo não havia mais nada. Era sempre ela a comandar a brincadeira e o pai vestia a pele daquilo que lhe pedia. Se fosse público, escutava com atenção, sem interromper. Se fosse parte do espectáculo, encarnava a personagem com rigor. Chegou a ser modelo e cobaia da sua manicure desajeitada. Podiam ser 20 ou 30 minutos, mas naquele tempo só eles existiam e isso valia por todas as outras horas.

 

Tinha saudades do pai.

 

A mãe e os avós garantiam-lhe que ele haveria de recuperar, mas Maria não percebia do quê. O pai nunca lhe parecera doente. Se calhar era por causa das discussões com a mãe, a avó dizia que ralhar dava-lhe cabo dos nervos e na volta o pai ficara com os nervos avariados. Desejava que melhorasse depressa, queria brincar de novo com ele e não apenas ter uma conversa de circunstância na hora da visita estipulada. Queria mostrar-lhe que já sabia ler e que o fazia cada vez mais rápido e melhor. Queria desenhar e pintar com ele e brincar como antes.

 

Concentrada e compenetrada em melhorar para dar o seu melhor quando estivessem de novo juntos, Maria retomou a leitura para o público mudo, ansiando o dia em que o pai faria de novo parte dele.

 

Texto original da minha autoria

 

* * * 

 

 

Capítulos anteriores:

Experiências #12

Experiências #11

Experiências #10

Experiências #9

Experiências #8

Experiências #7

Experiências #6

Experiências #5

Experiências #4

Experiências #3

Experiências #2

Experiências #1

 

 

foto do autor

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D