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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Sobre a eutanásia...

Já tive medo de morrer. Medo do que não iria viver, de não ver novamente pessoas queridas, de deixar de existir.

Com o passar dos anos, o amadurecimento da vida e algumas vivências, posso afirmar que já não a temo. Encaro a morte de uma forma natural: é algo tão inerente à vida como respirar.

Tenho medo sim, muito medo, do sofrimento. De sentir que vou perdendo faculdades, de não ser capaz de pegar numa colher sem que a mesma pareça um haltere de 25kg. Medo da dor. De não reconhecer os meus e dos desprezar, magoando-os. Medo do sufoco. De sentir a evolução de algo que me engolirá a pouco que me pouco. Medo do escuro, do desconhecido. Tenho medo do sofrimento atroz.

Por isso sim, sou a favor da eutanásia. Defendo que cada pessoa deve poder decidir como, onde e quando a sua vida chegará ao fim. Sou a favor de que se tenha a escolha entre o sofrimento e o alivio instantâneo. Sou a favor do direito de escolha informado, refletido e assistido. Sempre.

Mas...

Antes de pensarmos nesta questão, creio e acho essencial, que se valorize (ainda mais), que dinamize (muito mais), que se desmistifique, que se investigue (ainda haverá muito a aprender certamente) no que concerne aos Cuidados Paliativos.

Não é admissível que, na área do Grande Porto, aquele que é o maior (e melhor e mais qualificado) hospital oncológico tenha somente vinte camas na área de internamento deste serviço. Vinte.

Bem sei que estes serviços defendem uma morte natural, que nem sempre terá que ser hospitalizada, mas não chega para todos. Os enfermeiros, médicos e auxiliares desta unidade desdobram-se, dão um braço aqui, uma perna ali, um rim acolá, mas não chegam a todos que precisam. Até porque nem só o IPO-Porto tem doentes em fase terminal. Deveria existir uma rede maior de cuidados paliativos (e continuados), mais abrangente, que chegasse a mais doentes, dando (ou tentando, nem sempre é fácil) o alívio, a dignidade e o conforto.

Portanto, acho que o doente deve ter o direito de escolha, sim. Mas acho que, caso não escolha a morte imediata, deve ter à sua disposição um melhor serviço. Um serviço eficaz, que não se faça esperar entre burocracias e serviços de secretariado. Uma equipa que lhe traga paz, serenidade, carinho, conforto, dignidade e compreensão, para que a vida possa terminar o seu percurso de uma forma natural e o mais serena possível.

De que vale falarmos em eutanásia se não temos sequer outro serviço eficaz e qualificado para oferecer?

5 comentários

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    A Caracol 01.03.2016

    Será que são assim tão caras Chic?
    Ou será que os médicos ainda encaram esta medicina como uma derrota? Será que os doentes não encaram o SCP como uma antecâmara da morte?
    Talvez sejam caros, sim, mas acho que muita gente preferia estes cuidados à eutanásia.
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    Chic'Ana 02.03.2016

    Eu já tive um familiar em que lhe tentámos proporcionar os melhores cuidados: era uma instituição com enfermeiros, com ginásio, piscina, para questões de mobilidade, tinham "aulas" para desenvolvimento de capacidades, etc... e mensalmente ficava em mais de 1000€...
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    A Caracol 02.03.2016

    Sim Chic, eu sei que quando pagos a serviços particulares ficam muito dispendiosos.
    Lembro-me, por exemplo, das residências Montepio, com um serviço de excelência na área de cuidados continuados, mas que não está acessível a todos.
    Referia-me à despesa do Estado num serviço de Cuidados Paliativos... ;)
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    Maria vai com todos 03.03.2016

    Infelizmente há poucos (para a necessidade) serviços desses em Portugal.
    E os cuidados paliativos não são, nem podem ser vistos como uma alternativa à eutanásia. Os cuidados paliativos servem para dar maior conforto a uma pessoa com uma doença avançada. Isso não significa que essa pessoa prefira os cuidados à eutanásia , por exemplo. Não são uma cura, mas sim um conforto.

    Mais que nada é uma decisão pessoal e, como em tudo, deveria haver meios/esforços/leis que as permitissem ser possíveis.
    Sinceramente, quando já nem tens força para tirar TU a tua própria vida, o que te resta? A morte faz tanto parte da vida, como em vida optar pela morte!
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