"Nicolau só tinha de pensar muito bem como é que iria fazer sem que ninguém o descobrisse..."
E rapidamente descobriu o local ideal.
O menino dormia a sesta, Cidalino estudava a melhor forma de ligar o nitrogénio ao trenó para que a viagem fosse mais rápida este ano e Idalete fora ao cabeleireiro para retocar as raízes que segundo ela "estavam piores do que as cãs de Moisés, valha-me o pai do menino".
Nicolau aproveitou o estranho momento em que todos se ausentaram nos seus afazeres, sacou o overboard da chaminé, onde o escondera e saiu pela porta das traseiras, em direcção ao seu esconderijo mais secreto e que mais ninguém no mundo conhecia:
No meio da floresta que circundava a casa, bem no centro, habitava um pinheiro manso de tronco largo e ramos frondosos. Removendo um pouco da neve que lhe cobria as raízes, Nicolau accionou a alavanca que abria o tronco e suspirou quando entrou, antecipando o que os 8 Pássaros iriam reclamar desta vez...
Acordou quase sem fôlego, como se uma prensa a pressionasse contra o colchão. A custo, exercendo toda a força de quem acaba de acordar conseguiu mover os 50kg de cão para o lado, perguntando-se como raio o pequeno rafeiro que um dia adoptara se transformou naquela montanha de pêlo e músculo maciço.
O relógio marcava as cinco e meia da madrugada, ainda poderia dormir mais uma hora e pouco, mas rapidamente descobriu que já estava demasiado desperta para isso. "Que se lixe!", resmungou de si para si, quase ao mesmo tempo que ordenava um "Vamos embora" ao cão pachorrento que agora se acomodava melhor na cama vazia.
Nheca.
Vocês estão a gostar? Eu não estou a curtir muito o rumo que isto leva. Demasiado banal. E quem é que dorme com um cão de 50kg, por deus?! Vamos lá recomeçar.
Faltavam pouco mais de trinta dias para o Natal. O frio chegara com toda a força, lembrando ainda mais a quadra. A casa cheirava a bolo com canela, a chaleira dava sinais de começar a fervilhar a água para o café.
Ok. Isto é difícil. Sou uma idiota, verdade, mas este desafio revela-se menos fácil que o que tinha idealizado. Cala-te, pá! Continua e não te interrompas!
Ao mesmo tempo que a chaleira soltava o apito final, Luísa ouviu um burburinho. Uma murmúrio baixo, num diálogo imperceptível.
Que diabo!, pensou, Hoje não há reunião de condomínio, que raio se passará com os vizinhos?
Serviu-se do chá, pegou em duas bolachas e dirigiu-se para a sala.
Ao passar pela lavandaria, apercebeu-se que o murmurinho aumentava de intensidade. Ainda não se parecia muito bem o diálogo, mas à medida que Luísa se aproximava da divisão, conseguiu deslindar um "tem que ser! É imperativo que aceites a missão!"
Instintivamente, entre a surpresa e o medo, Luísa recuou um passo.
Alguém estava em sua casa. Mas como? Como tinham passado pelo porteiro? Por onde entraram?
As vozes calaram-se, como se soubessem que estavam a ser escutadas. Toda a casa queda e muda, não havia um único som no ar. Luísa susteve a respiração, como se temesse que ela denunciasse a sua presença.
Do outro lado da porta chegou um gemido. Um choramingar baixinho, acompanhado de algumas palavras de incentivo.
Mas que diabo de passava ali?
Com súbita coragem, Luísa descalçou os chinelos e avançou em passos silenciosos para a lavandaria. A meio, pensou que talvez fosse boa ideia levar uma arma e voltou à cozinha. Olhou em redor e a chaleira pareceu-lhe uma boa opção: era pesada e estava quente. Ainda que não tivesse boa pontaria, causaria algum dano. Segurou-a firmemente, como se a sua vida dependesse disso, e avançou.
Abriu a porta com cuidado, o cómodo estava às escuras, tal como havia deixado horas antes, o gemido continuava e juntava-se-lhe uma prece, uma espécie de oração murmurada com fervor.
Foi percorrendo o pequeno espaço, abriu o roupeiro num gesto rápido e eficaz, apenas para constatar que só lá estavam os casacos pesados de inverno.
Não havia ninguém ali, a não ser que se coubesse numa das máquinas, o que não lhe parecia plausível.
Estranho. Estarei a alucinar?
De repente, vinda do nada, uma pequena luz brilhou. Um feixe pequeno, do tamanho de uma noz, brilhava a indicar o caminho... Para o cesto da roupa suja.
Ah-ah! Apanhei-te!
Segurou a chaleira acima da cabeça, de modo a conseguir exercer mais força na pancada.
Nesse momento, uma voz profunda e sábia ecoou do cesto:
- Vai Pezinho. Nós acreditamos em ti. Só tu podes salvar o Natal.
Luísa engoliu em seco antes de levantar a tampa do cesto, a luz extingui-se no exacto momento em, que o fez, mas ainda conseguiu ver o círculo de peúgas alinhado em torno de uma pequena meia tolhida de medo.
No mesmo instante em que decidiu que estaria louca, que a insanidade certamente teria levado a melhor, uma meia preta, com voz de trovão, dirigiu-se-lhe:
- Ainda bem que chegaste Luísa, precisamos da tua ajuda.
A história será continuada pela Just Smile, que estava ansiosinha por fazer o gosto aos dedinhos.
Just amiga, o próximo capitulo deverá conter as palavras: trapézio, deserto e pepino. :D