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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Desafio dos Pássaros 2.1

Acho que a coisa não vai correr bem

Passo a vida a dizer isto. Não muito alto, não quero que outros ouçam a minha insegurança, mas digo-o silenciosamente, para mim. 

Digo-o quando desço as escadas molhadas em direção à lavandaria, sabendo de antemão o perigo de escorregar. 

Digo-o quando subo a uma cadeira para chegar a uma prateleira mais alta. 

Digo-o quando forço um bocadinho e sinto a lombar a picar. 

Digo-o todos os dias, quando olho para o meu filho mais velho adormecido: acho que a coisa não vai correr bem. 

Tenho medo. Muito medo. 

Medo que a rapariga se antecipe e conheça o mundo antes do tempo. 

Medo que fique internada dias a fio e eu sem saber se me vire para a mais nova se para o mais velho. 

Medo da ansiedade que a minha estadia no hospital vá provocar em casa. 

Medo de precisar de mais dias do que os dois com que fervorosamente acredito precisar. 

Medo que a primeira reação não seja a melhor. 

Medo de não estar à altura de dois filhos tão pequenos. 

Medo de a coisa não corra bem e não segure todas as pontas, como sempre me habituei a fazer. 

Medo de lhes falhar, de não conseguir estar lá para eles, da mesma forma e com a mesma plenitude que para um. 

Mas depois... Depois, lembro-me que isto é, no fundo, a única melhor coisa que poderia acontecer. 

Lembro-me como vai ser giro voltar a ter um bebé, apesar do que tudo isso implica.

Lembro-me que tudo aquilo que o Caracolinho sempre pediu foi uma mana e, mesmo passando pela inevitável adaptação e possível rejeição à rapariga, vai adorar ter alguém para ler histórias e brincar ao faz de conta. 

Lembro-me o quanto odiei ser filha única, o quão pesadas são as cargas quando só existe um para equilibrar com a barra. 

E por isso, mesmo sabendo que haverá dias que a coisa não vai correr bem, guardo o medo no bolso pequenino das calças de ganga que agora não servem, para me lembrar dele quando as coisas correrem bem. 

 

Desafio dos Pássaros #15

O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana. Descreve uma dessas entrevista

Rudolfo bufou, exasperado. 

Já tinha feito mais entrevistas de emprego do que os embrulhos de umas horas de trabalho de um Elfo. 

À sua frente já se tinham sentado: um Pai Natal bêbado depois do seu turno no centro comercial, Rita Ferro Rodrigues que lhe limpou a paciência para os próximos três anos com o politicamente correto, André Ventura que tentou ludibriá-lo com discursos utópicos e assertivos, mas dali não levou nada, que Rudolfo é só um antílope e não um peixe. Esteve três infinitas horas com Joacine, apenas para ela lhe dar os bons dias. Quando a conseguiu despachar, colocou o Radio GaGa em loop, só para descontrair. Trump também tentou a sorte, mas recuou quando Rudolfo frisou que "todas as crianças do mundo, incluem também as mexicanas." Seguiu-se Bolsonaro, que saiu chamando a rena de "animal", quando este lhe disse que teria de usar uma política mais sustentável. Até Greta apareceu, cheia de ideias inconcretizáveis e um punhado de embalagens recolhidas das Maldivas, com as quais pretendia embrulhar todos os presentes do mundo. Bonito, mas inconcebível num curto espaço de tempo. Numa das suas pausas para o lanche, ainda esbarrou com Marcelo Rebelo de Sousa, mas o homem só queria um selfie e não o cargo. Do mal o menos, sempre era mais publicidade para atrair mais candidatos ao cargo. 

A vida não era justa. Tinha pedido férias ao patrão e justamente nesta semana é que o sacana do velho anuncia a reforma. Engoliu o resto do almoço e bebeu o café de um trago só. O próximo entrevistado esperava-o e tinha grande fé neste candidato. 

- Então, diga-me: está disposto a deixar tudo para fazer as crianças mais felizes nesta quadra? 

- Eu já não tenho quase ninguém, sabe. A minha família apoia-me e vou sentir-lhes a falta, mas eu sei que ainda consigo fazer melhor e compensar, de alguma forma, os erros que cometi. 

- Tem experiência em cargos similares?

- Não com tanta responsabilidade, seguramente. Há uns anos largos, numa outra vida, fiz várias pessoas felizes com sorteios num programa de televisão. Era gratificante poder oferecer alguma coisa a alguém que, muitas vezes, não tinha nada. 

- Um programa de televisão, disse? 

- Sim, sim. Olhe, até tinha uma ajudante, quase como o Pai Natal o tem a si. 

- A Lenka? 

- Não, não... - assegurou o entrevistado por entre risos - a minha ajudante era mágica, criou todo um mundo de imaginação à sua volta, as pessoas sonhavam com ela e nem sequer tinha uma curvas tão atractivas como as da Lenka. Fazíamos uma boa parelha. Se conseguir o cargo, vou perguntar-lhe se está disponível para voltar a espalhar magia comigo. 

- Ajudas são sempre bem-vindas. E com magia, ainda melhor! E diga-me: crianças. Como se dá com elas? 

- Oh, as crianças...! O que gosto de crianças! E de as fazer felizes. São um profundo poço de aprendizagem, sabe? Valorizam as mais pequenas coisas e ensinam-nos que o que realmente vale a pena, o que realmente importa não são os presentes mais caros ou as marcas mais luxuosas: é o momento, o tempo e o carinho que lhes dedicamos. Adoro crianças! 

- Há muito tempo que não aparecia aqui alguém com um discurso tão entusiasta sobre a miudagem, sabe. Até deu gosto ouvir. Creio que temos contrato. Vamos só tratar das formalidades e começa... amanhã. Que me diz, senhor... Peço desculpa, relembre-me o nome, por favor? 

- Cruz, Carlos Cruz. 

 

Desafio dos Pássaros #14

Não nasci para isto

É a 265ª vez que lhes repito o mesmo: não nasci para isto. 

Os sacanas insistem: ninguém nasceu, trabalha-se e consegue-se. Depois, mandam-me para mais uma ronda. 

Não aguento mais. Já não sinto as pernas, falta-me o ar, sinto-me a colapsar de dentro para fora. Como é que eles não vêem? Como é que eles não percebem que, se continuar assim, vão acabar por me mandar para a morgue, ou pior para o hospital? Como é possível ignorar as dores de uma pessoa assim desta maneira tão vil? 

Como numa espiral de euforia que nos leva a loucura, a música continua. Grita aos nossos ouvidos, impelindo-nos mais um pouco para diante. Há sempre um olhar de compreensão que se troca com um colega, na impossibilidade de articular qualquer palavra. Estamos todos no barco, custa o mesmo a todos. Saber disso, mesmo não atenuando a nossa agonia, ajuda a suportar o peso com que nos carregam as costas. 

Olhamos em frente, em busca de novas ordens, exaustos, derreados e já a ver a luz ao fundo do túnel - não a da esperança, a outra que os moribundos alegam existir. 

- Não nasci para isto - repito novamente para mim. 

- Não desisssstteeeeeeeee! - é o grito que se ecoa pela sala, com um olhar reprovador sobre quem tem a audácia de respirar um bocado. 

- Mais oitoooooo! 

- Não nasci para isto - penso, enquanto conto o número de cobras, sem sentir os braços. 

Finalmente, termina. 

Como se sofrêssemos de amnésia, agradecemos ao nosso carrasco, elogiando o seu trabalho e prometendo voltar. É sempre assim: quanto maior o desafio, maior o vício. A mente sai leve, não sentimos nada e nem sequer sabemos como vamos descer escadas no dia seguinte. Nesse momento, temos a certeza: mesmo não nascendo para aquilo, é exactamente daquilo que precisamos. 

 

(texto inspirado numa qualquer aula de crosstraining. Ou Power. Ou Jump. Ou Fitness, no geral.)

 

 

Desafio dos Pássaros #13

Reescreve o final de um filme

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O vento soprava furioso e impedioso, arrastando consigo o inverno gelado. 

Ana, que mal conseguia andar, vislumbrou ao longe Kristoff e forçou as pernas na sua direção. 

Ao mesmo tempo, Hans desembainha a sua espada para o último e derradeiro golpe: aniquilar uma Elsa vulnerável. 

Numa última tentativa de fazer o que está certo, num último grande gesto de amor verdadeiro, Ana defende a irmã, congelando ao último suspiro. 

- Resultou? - pergunta por cima do ombro.

- Tal como previste querida. És um génio! Mas... E agora? Ela não vai descongelar, já que este foi o seu último acto de "amor verdadeiro?" - questionou Hans. 

- Querido, por algum motivo eu nasci com poderes e não a tonta da minha irmã. 

Aproximando-se da estátua gelada de Ana, Elsa canta sinistramente enquanto pequenos flocos de neve que saem das suas mãos se acomodam na pele gelada da irmã: 

Vem fazer bonecos de neve?
Há um que é só teu

- Magnífico! - aplaude Hans - E... os outros? - questiona apontando para Kristoff, Olaf e Sven. 

Elsa encara, pela primeira vez depois daquele momento, os três pares de olhos que a fitavam com desconfiança, horror e estupefacção. 

Numa atitude algo teatral e cuidadosamente encenada, pergunta: 

- Oh! Não me apercebi que estavam aí... Que horror! Que fui eu fazer? A minha única irmã...! 

Olaf abriu a boca para tentar falar, mas um raio de gelo atingiu-o antes sequer de o conseguir fazer. 

O mesmo aconteceu à rena e ao dono, eternamente convertidos em estátuas geladas, quedas e mudas. Para sempre petrificados. 

- Achas que cabem no jardim do palácio, querido? Não me apetecia olhar para eles sempre que estiver no salão. 

- Arranja-se maneira, meu pequeno floco de neve. Tratas da nuvem de inverno para os manter assim e eu trato de os colocar a decorar o jardim. Vai ficar lindo no Natal! 

 

Tema #7 - Máscara Capilar

A primeira que coisa que me chamou à atenção foram os sapatos. De marca, provavelmente valendo mais que o meu salário de dois meses, de verniz preto e um tacão que provocava vertigens só de pensar colocar-me em cima dele.

A seguir vieram as pernas: esguias, torneadas e capazes de me fazer chorar de inveja. O vestido de cabedal, justo e colado às ancas, deixava antever um glúteo perfeito, duro e trabalhado. O decote, não muito acentuado, realçava o colo, com mexas de cabelo loiro ondulado caindo em pedaços em sítios que o tecido teimava esconder. Quando foquei o rosto, senti-me despida por uns olhos verdes, cristalinos e pouco simpáticos.

Quem raio fazia uma fulana como esta cá na terra?

- Boa tarde. Posso ajudar?

- Boa tarde. Onde estão as máscaras capilares?

Arrogantezinha de merda. Ainda por cima boa como o aço. Badalhoca. Não temos máscaras capilares sua magrela, pau de virar tripas.

- Máscaras capilares, de momento, estão esgotadas. Mas temos aqui uns amaciadores muito bons. Deixe-me mostra….

- Condicionador não quero, obrigada.

Olhá a vaca a chamar-me burra nas entrelinhas.

- Precisava mesmo era de uma máscara… Tenho as pontas todas danificadas.

‘Pera aí que eu já t’atendo.

- É como lhe digo: máscaras não temos. Mas… Já pensou em experimentar um produto mais natural? Tem um cabelo tão bonito que é um crime enchê-lo de químicos.

- Acha mesmo?

- Se eu acho? Já reparou nos ingredientes de uma máscara capilar? Aquilo é o demónio em forma de creme acetinado! Olhe… relembre-me o seu nome, por favor?

Logo vi que devias ter um nome desses todo betinho. Sonsa.

- Olhe, Constança, sabe qual é a indústria mais mentirosa que existe, logo depois da farmacêutica? A dos produtos capilares. Aquilo é só lobbys e photoshop para enganar o povo. Prometem-nos cabelos macios como a seda, mas ainda não há que chegue àquilo que os antigos faziam. A minha avó tem 95 anos e ainda hoje tem um cabelão capaz de fazer inveja à Rapunzel.

- O que me sugere então?

- Um cabelo como seu, merece um produto elaborado com carinho, com amor e dedicação. Biológico, de preferência e isento de glúten. O glúten é outro pequeno demónio: entranha-se nas pontas, insufla o o fio capilar e faz com que fique espigado.

- Nunca tinha pensado nisso… Tem algum produto desse género que possa experimentar?

- Olhe, por acaso tenho, sim senhora. Acabaram de chegar agora mesmo umas compotas de abóbora que são um doce para o cabelo. Feita com abóboras biológicas, sem açúcar refinado – que também faz um mal terrível ao couro cabeludo, tornando-o oleoso - e com amêndoas de cultura biológica, de Freixo de Espada à Cinta. 

- Compota?

- Compota. Já viu o cabelo da Kardashian? Aposto que é disto ela usa, aquele brilho não engana ninguém. Eu própria utilizo e é uma maravilha. Deixa atuar uma boa meia hora e depois lava normalmente.

- Bem, se é assim… Acho que vou experimentar. Levo um frasquinho.

- Vou dar-lhe dois e faço-lhe uma atenção, porque isto esgota sempre num instante. Mas é só por ser para si.

- Oh! Muito obrigada pela simpatia.

- Ora essa. Nada a agradecer, vai adorar! 

Cabra.

Texto 1

Como já vos disse, participei no CNEC - Campeanato Nacional de Escrita Criativa, do Chagas Freitas, este ano. Foi sol de pouca dura, quer pela motivação, como já expliquei, quer pelos temas (se acham os nossos desafiantes, deviam experimentar botar as retinas naqueles...). Esta foi a minha primeira participição. Não posso divulgar o tema - regras da organização - e valeu-me uns orgulhosos 46 pontos. 

 

- Outra vez de férias? 

- Meu, não me fodas a cabeça. Aquilo lá em cima está um autêntico inferno. Se eu soubesse o que sei hoje, jamais mandaria o meu mais velho cá para baixo. Ficava no comando e estava o castigo feito. 

- Sempre achei que fosses omnipotente…. – ironizou Carlos, consultando rapidamente as horas no Mont Blanc que sustinha no pulso. O amigo encolhera os ombros, bebendo um grande gole da sua cerveja. 

Pigarreando, Carlos retomou a conversa: 

- Deus, não me chamaste aqui só para discutirmos, outra vez, os teus poderes e qual a melhor forma de os utilizares, pois não? 

- Bom, na verdade não. Estou com um problema…

Carlos conteve o revirar de olhos, pedindo ao amigo para continuar.

- Sabes, estou farto disto. Farto, farto, farto. Há um terramoto, a culpa é minha. Um estupor conduz bêbado, em contra-mão, mata uma família inteira e a culpa é minha. O médico engana-se no diagnóstico, a culpa é minha. Até o degelo é culpa minha! 

- E então? Também te culpam por coisas boas… É a vantagem se seres… Tu. Não estou bem a ver qual é o problema, nem porque precisas de um advogado. Não me digas que os apóstolos voltaram a reivindicar retroactivos… 

Deus suspirou. Ao cabo de uns segundos prosseguiu:

- Quero reformar-me. Eternamente. Preciso de um advogado para me representar nas próximas reuniões do Conselho e que seja, ao mesmo tempo, capaz de o reestruturar. Quero ainda delimitar e conceder poderes, bens e regalias. Resumindo: quero bazar e deixar as coisas bem feitas. Não quero mais culpas. 

Carlos fitou-o, atónito, sem saber muito bem o que dizer. Por aquela é que não estava à espera…

- E então, ainda tens onde ir? 

Tema #6 - O amor, uma cabana... E um frigorífico

 

A mesa estava posta.
O jantar estava pronto.
O aquecimento estava ligado.
Era mais fácil elaborar a lista de tarefas mentalmente, a última coisa que queria era estragar aquela noite. Afinal, não eram todos os dias que se celebravam 20 anos de casamento.
Olhou em volta da pequena cabana, satisfeita com o resultado.

André ia adorar!

Era o seu lugar preferido, as suas flores favoritas e o seu prato predilecto. Iam ter que apertar o resto do mês, mas pelo menos hoje poderiam refastelar-se na carne tenra de um cabrito assado.
De regresso ao quarto depois de um banho quente, Sara vestiu o vestido verde esmeralda que o marido lhe dera num Natal.
“Condiz maravilhosamente com os teus olhos” – elogiara André.
Estremeceu ao recordar o som pesado da sua contra o seu pescoço. A mãos hábeis que lhe desapertaram o vestido, desembaraçando-se dele de uma só vez. A língua atrevida e destemida, redescobrindo cada pedaço de pele nu, saboreando os seus recantos mais escondidos.
Forçou-se a parar por ali antes que perdesse o controlo e terminou de pentear o cabelo.
O crepúsculo conferia à pequena cabana uma tonalidade alaranjada, quente e aveludada. Acendeu as velas do parapeito da lareira e colocou o castiçal na mesa.
Do velho frigorífico, já gasto e com ferrugem em algumas zonas, tirou um Planalto fresco que abriu sem demora.
- Um destes dias este velhote tem que ir para a reforma. – dizia constantemente André.
Sara refutava, alegando que a idade trazia personalidade e conferia carisma ao velho frigorífico. Era das poucas peças que a cabana possuía quando a compraram, das poucas a que Sara se apegara. Estava com eles desde sempre, tal como aquele esconderijo que há 20 anos se tornara o pequeno tesouro deles.
A noite caiu estrelada, com quarto minguante perfeito.
André iria adorar.  Talvez pudessem observar as constelações, depois do jantar.
De volta à pequena sala, Sara colocou o jantar na mesa. Cheirava divinamente.
Sentou-se, aspirando novamente os aromas familiares e reconfortantes da pequena divisão.
Tabaco, madeira, comida caseira, canela e maçã. Absolutamente perfeito e tal qual se lembrava, desde sempre.
Sorrindo, serviu-se de carne e batatas.
Encheu o copo de vinho, levantando-o num brinde imaginário à figura que a fitava  atravésda moldura colocada no local onde estaria o segundo prato.


- A nós, meu amor. Onde quer que estejas.

 

Tema 4 - A Beatriz disse que não

Não fora assim que imaginara a sua vida aos 32 anos. 

Nunca julgou ter que tomar decisões tão importante antes do meio século de vida. Pensando melhor, nem sequer tinha pensado que existissem decisões deste calibre, muito menos que a liberdade de dizer "não" lhe fosse tão cara. 

A maioria dos seus amigos não compreende, acusando-a de cobardia e de seguir pelo caminho mais fácil. Os poucos que foram ficando ou raramente apareciam fisicamente ou apenas telefonavam sem saber muito bem o que dizer. 

A família ia aparecendo, sempre com a pena a pairar nas íris. Raramente com palavras para mais de cinco minutos de tempo. 

A mãe suportou como pôde, aguentando o barco no meio da tempestade. Até ao dia que afundou na própria impotência. 

O pai raramente a olhava nos olhos. Não o censurava: era difícil para um pai aceitar aquela decisão de uma filha. 

O namorado ficou durante algum tempo, até ao dia que lhe pediu por tudo para mudar de ideias. "Tenta Beatriz, pelo menos tenta" - pedira-lhe desfeito em lágrimas. Ela deixou-o ir, não lhe podia pedir para ficar quando a decisão que havia tomado lhe provocava tanta dor. 

Só a irmã ficou. Inabalável, acomodada às dores constantes - a sua e a de Beatriz - superando a frustração da impotência com um livro, completando o silêncio com uma presença constante. Às vezes chorava silenciosamente. Outras vezes choravam as duas, numa torrente de lágrimas e soluços entre cortados. 

Não fora assim que imaginara a sua vida aos 32 anos. 

O rosto magro e macilento. Um corpo outrora roliço e vistoso, carcomido por um demónio invisível a olho nu. Sugada de dentro para fora. Entrelaçou as falanges finas e débeis. A respiração pesada lembrava-a do quão fina era a corda que a amarrava a vida. Estava cansada. Agora, estava sempre cansada. 

- Não vou estar com paninhos quentes, Beatriz. - dissera-lhe o médico, numa outra vida - Tem um osteosarcoma de grau IV. Muito difícil de curar, mas com algumas possibilidades de tratamento. Com o protocolo de quimioterapia combinado com radioterapia, talvez consigamos mais dois anos. 

O mundo caiu. Dois anos? Vinte e quatro meses? Não queria dois anos, queria a vida toda. Ou tudo ou nada. 

Escolheu o nada e o tudo. 

Há seis meses, dissera que não a um sofrimento que lhe parecia atroz e um aditamento de uma morte que, sentia agora, estava iminente.

Tema 3 - Uma aventura ou momento que te tenham marcado

Era mesmo fixe que eu não tivesse feito aqui alta confusão com os temas, não era? 

Desculpem e lembrem-se que estou grávida, logo o meu cérebro baralha a informação que me é dada. Não que fosse impossível isso acontecer no meu estado normal, mas se a gestação pode ser uma desculpa... Então que sirva para isso mesmo. 

Aventuras tenho várias, como sabe quem me lê mais assiduamente e decidi que não ia por aí. 

Momentos também tenho vários: o dia em que fui mãe, o dia em casei, o dia em corri a primeira prova, o dia em que descobri que estava novamente grávida, enfim são muitos. 

Contudo, para hoje, escolhi o momento que todos tentamos evitar. Que tentamos contornar e florear nas palavras, tornando-o menos denso, menos doloroso, menos negro. 

Falemos da morte. 

Não é fácil o momento em que ela nos bate à porta, senhora de si e da sua sabedoria, numa pose de quem chegou e não arreda pé sem levar o que quer. 

Costumo dizer, quando falo nas minhas mortes, que já tive dois funerais: o do meu pai e o da minha mãe. É inevitável não considerar aqueles falecimentos como meus, porque uma grande parte de mim também quinou naqueles dias. 

Renasci, alguns tempos mais tarde, não inteira ou sequer como era antes, apenas diferente. Aprendi de novo onde pertencia, que caminho escolheria e como poderia ser. Descobri que a morte não é um bicho papão e que o maior cliché do mundo é também a maior verdade: é tão natural morrer como nascer. Aprendi a lidar com a dor, guardando-a sempre comigo e fazendo as pazes com ela. Às vezes tomamos chá juntas. Nesses dias, peço um bolo de chocolate a acompanhar. O chocolate torna tudo melhor, até as dores da morte. 

Aprendi com ela, a morte, que a vida só faz sentido estando casada com ela. De que outra forma valorizaríamos tanto o sol, se não existisse a noite? 

Não sei se lhe perdi o medo, gosto de pensar que sim, mas lá no fundo sei que não. Não por mim, não me assusta a minha não existência, mas pelos meus: morro de medo que a morte me leve mais alguém. Por isso mesmo, aprendi a respeitá-la: brinco com ela, satirizo-a, chego até a ridicularizá-la, mas tenho plena consciência que, no fundo, isso não lhe retira nenhum poder. Pelo contrário, aumenta-o. Já a mim, mantém-me consciente de que ela existe, a cada esquina, a cada curva e cada falha de um batimento cardíaco. E acredito, mesmo, que é uma gaja com um sentido de humor do caraças e que não me leva a mal. Se levar... Que se amanhe, que eu também me amanhei quando me tirou o chão. 

Tema 2 - O amor e um estalo

Aurora encolheu-se um pouco mais, enroscando-se sobre si mesma, como se pretende-se desaparecer entre os cobertores da cama vazia. 

Deixou-se afogar num choro inconsolável e silencioso. 

Que fizera para merecer semelhante fado? Que raio de karma era este que lhe tirava o tapete do chão, uma e outra vez? O que fizera de errado? A culpa era sua. Tinha que ser sua. A quem mais cabia a função de proteger uma vida em curso, se não à mãe? De nada adiantava os médicos argumentarem que não a culpa não era dela, que não havia que pudesse fazer para impedir.

"São coisas que acontecem" - dissera-lhe a doutora Irene. 

Só que para Aurora, já era a terceira vez que "as coisas aconteciam" e desta vez esteve tão perto do limite temporal estipulado, permitiu-se sonhar mais alto, ver além do número 12, voar para lá do medo. Um luxo que lhe custou uma queda demasiado violenta. Não conseguia aguentar-se sequer de joelhos e tampouco saberia quando iria conseguir levantar-se. 

No torpor de um corpo dormente e dorido pelo constante soluçar, chegou-lhe a sensação acolhedora de um abraço. Uma nova torrente lágrimas molhou-lhe o rosto, o corpo foi sacudido por novos soluços. O abraço ficou mais apertado, cingindo-a num aconchego familiar. 

Instintivamente, num acesso de fúria, tentando manter consigo a dor que lhe queimava a alma e recusando qualquer consolo, Aurora desferiu um estalo na face de Jorge. Primeiro um, depois outro, outro ainda, tentando a todo o custo libertar-se do abraço que ele insistia em manter apertado. Não queria consolo, não queria pena, queria que a culpasse também que a odiasse, que dissesse que era pior mulher e a pior mãe do mundo. 

Quando por fim se cansou, a fúria deu lugar ao vazio. Pela primeira vez, naquilo que lhe parecera muito tempo, Aurora não sentiu nada e deixou-se levar pelo torpor que lhe invadia o corpo. 

- Não estás sozinha. Eu vou estar sempre contigo. Desculpa se falhei. Não estás sozinha. - foram as últimas palavras que ouviu, antes de mergulhar num sono profundo.