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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Desafio dos Pássaros 2.2

É que isso de médicos, nunca fiando

Mamas, 

Vim agora do hospital e o médico disse que tenho uma virose. Chamou-lhe ele "Burro-parvo-virose". Disse que passava com tempo e abstenção de grupos de mamas. Ainda falei no 'tibiótico, mas ele disse que não precisava, que passava se deixasse de vir aqui ler comentários de mamas com mestrado no Google. Eu acho que precisava mesmo de um 'tibiótico. E também acho que o médico foi grande parvo e mal encarado na minha consulta. Estava sempre a olhar para o relógio, a meio disse ao coleguinha "vai ver como está a senhora que eu já subo". Quando o confrontei sobre isso, que eu assim muito frontal não guardo cá nada dentro, disse que tinha uma senhora com um parto complicado e que precisava de acompanhamento. Passei-me! Atão, eu que estava carregadinha de comichões até ao umbigo, olhem que só eu sei como passei a noite, sempre num coça coça que quase fui buscar o piaçaba para ajudar na lombar, eu que lhe pago o ordenado com os meus descontos, nem todos, porque faço uns extra com unhas de gel que não entram no rendimento, mas pronto cada um safa-se como pode, eu que estou com gravidez de risco desde as 4 semanas, porque é muito perigoso inserir facturas no computador, e o médico de família nem me queria passar, tive que armar barracada e fazer valer os meus direitos, mas já me perdi... Ah! Eu que estava ali mesmo aflita, praticamente com o mindinho do pé no cemitério e outro no portão ao pé do S. Pedro, tive que levar com uma rapidinha do médico. Olhem que o sacana mal para o livro de grávida olhou, caramba! 

Bom, queria saber as vossas opiniões: não acham que me devia ter passado uma penincinlina? Já li que comichões no umbigo podem ser bacterianas e podem levar a partos prematuros... É que isto de médicos nunca fiando. 

Estou com 5s+4d+10h+32m+5seg 

Gajas vs Gajos a marcar um jantar, num grupo de mensagens

 

GAJOS

Gajo 1: Meus, e se fôessemos jantar?

Gajo 2: Boa!

Gajo 3: 'Bora!

Gajo 4: Data?

Gajo 5: Digam coisas....

Gajo 1: 25 janeiro, sabádo. Todos podem?

Gajo 2: 👍

Gajo 3: 👍

Gajo 4: Não posso. Vou na próxima. Divirtam-se!

Gajo 5: Vou.

Gajo 6: 👍

Gajo 7: Siga!

Gajo 1: Está combinado. 25 janeiro, ao jantar. Vou fazer reserva.

Dois dias depois:

Gajo 1: Reserva feita. Vemo-nos lá.
Restantes gajos: 👍👍👍👍👍👍👍👍👍👍

GAJAS

Gaja 1: Meninas vamos almoçar?

Gaja 2: vamos!

Gaja 3: 'Bora!

Gaja 4: Fiesta!

Gaja 5: YEAH!

Gaja 1: quando podem?

Gaja 6: É para fazer o quê?

Gaja 7: A Gaja 1 quer marcar um almoço.

Gaja 6: Ah! Boa!

Gaja 8: Este mês?

Gaja 9: Este mês nem pensar!

Gaja 3: E tem que ser almoço? Não pode ser jantar?

Gaja 10: Já há data?

Gaja 1: 25 janeiro. Todas podem?

Gaja 2: Eu posso.

Gaja 4: Fiesta!

Gaja 3: Tenho que ver...

Gaja 5: I'm in!

Gaja 6: Tenho que fazer contas. Janeiro é enorme.

Gaja 7: Mas onde? Não se esqueçam de quem é de longe...

+ 945 mensagens nas duas semanas seguintes

Gaja 6: Gente, não vou poder ir ao almoço, mas passo para o café.

Gaja 3: Não era jantar?

Gaja 4: Fiesta!

Gaja 5: E vens de propósito?

Gaja 6: Então não era almoço? Não era já ali em baixo?

Gaja 10: Para ti é sempre já ali...🤦‍♀‍

Gaja 7: São 40km de onde estás.

Gaja 6: Ah.

Gaja 9: E preços?

Gaja 11: Foi a @12 que tratou...

Gaja 2: Meninas, alguém tem cartas do Lidl? Precisava da 17,27,45.

Gaja10: Tenho a 27.

Gaja 1: Devíamos fazer mais perto.

Gaja 6: Devíamos fazer jantar.

+ 1234 mensagens nas semanas seguintes

Gaja 1: Faltam duas semanas para o nosso jantar. 😀

Gaja 3: Yeah!

Gaja 4: Fiesta!

Gaja 6: Não era almoço?

Gaja 8: Mudamos para jantar. Não viste?

Gaja 9: Quando é?

Gaja 10: Vou chegar mais tarde.

Gaja 7: Sempre vamos ao Z?

Gaja 6: Então não era no Y?

Gaja 8: Era mais caro e mais longe. Mudamos para o Y.

Gaja 6: Então se calhar também vou. Vou ver.

Gaja 2: Vou ver se consigo ir. Depende dos câmbios.

Gaja 1: Preciso de confirmações até ao fim da semana.

+ 2345 mensagens na semana seguinte

Gaja 6: Quanto ao jantar… Afinal sempre vou.
Sempre é no Z?

Gaja 8: Sim.

Gaja 1: Somos quantos?

Gaja 6: Só consigo dizer mais no final da semana.

Gaja 5: Treino feito!

Gaja 7: Tu és maluca… com este frio?

Gaja 1: Quantos somos, afinal?

Gaja 5: Tem que ser. Parar é morrer!

Gaja 10: Pontos do Pingo Doce, alguém tem?

Gaja 2: Não tenho. Também queria.

Gaja 6: Isso são pontos? Pensei que eram só autocolantes… deitei montes fora, ontem.

Gaja 2: 🤦🤦🤦🤦

+ 3567 mensagens nos dias seguintes

Gaja 1: Amanhã vou passar no Z para marcar mesa. 😁

Gaja 4: Fiesta!

Gaja 3: Tá quase!

Gaja 6: oh yeah!

Gaja 10: Dá para manter o foco, nesse restaurante?

Gaja 5: Em princípio também vou.

Gaja 8: *Clip de voz*

Gaja 2: Não consigo ouvir aqui.

Gaja 7: Ohhhh. Que pena. Mas compreendo.

Gaja 1: O restaurante não aceita reservas ao sábado à noite. Vou lá passar amanhã para falar melhor.

Gaja 3: Vamos a outro?

Gaja 12: Não muito mais longe, por favor.

Gaja 6: Conheço um muito fixe, em Freixo de Espada À Cinta, ali perto onde Judas perdeu as botas.

Gaja 10: Isso é longe.

Gaja 6: É já ali. E a comida é mesmo boa.

Gaja 1: Fico com pena que não vás @Gaja8, mas compreendo.

Gaja 6: A @Gaja8 não vai?

Gaja 2: Afinal também vou.
Gaja 3: E alternativas?

Gaja 6: Em Macedo de Cavaleiros também se come bem.

Gaja 3: Meninas, não dispersem…

Gaja 8: Pode ser que a @Gaja1 consiga no Z.

Gaja 7: Meninas, alguém tem a receita de muffins de chocolate?

3 horas e 345 mensagens depois

Gaja 1: Olhem meninas, nada feito. Não fazem reserva e é tipo fábrica: entras, comes e sais. Não dá para nós.

Gaja 3: Então e agora?

Gaja 6: Podemos sempre ir ao centro ao comercial. Mesas não faltam…

Gaja 7: Achas?! No Centro Comercial? Ao sábado às noite? Com miúdos? És louca…

Gaja 2: Então e se fôssemos ao Y?

Gaja 5: Isso não é longe para a @Gaja12?

Gaja 6: Devia ser um sítio perto para todas…

Gaja 10: Eu moro a 100km daí…

Gaja 6: Queria dizer central. Pronto, olha, cada uma traz uma coisa e fazemos um piquenique ao pé do rio, debaixo da ponte.

Gaja 3: E pela zona da Mealhada?

Gaja 1: Tive uma ideia!

Gaja 6: oh céus…

Gaja 1: E se fôssemos ao XPTO?

Gaja 5: Isso não é caro?

Gaja 7: E onde é que isso fica?

Gaja 10: Dá para manter o foco?

Gaja 6: As sobremesas são boas?

Gaja 8: Caraças, tenho mesmo pena de não ir.

Gaja 12: Pode ser.

Gaja 3: Então e ali no D?

Gaja 9: Esquece, está sempre cheio.

Gaja 6: Centro Comercial?

Gaja 4: Fiesta!

Gaja 11: Onde é que é afinal? Eu gostei do D.

Gaja 6: Mas o D é longe para a @12 e @10. E não sei se tem reserve de hoje para amanhã. É pequeno. Mas os gelados são muito bons!

Gaja 3: Babei pelo bacalhau…

Dia 25 às 7 da manhã

Gaja 1: Estive até às 5 da manhã a ver restaurantes. Estou enjoada.

Gaja 3: Eu também.

Gaja 6: Onde vamos jantar?

Gaja 8: Bom dia!

Gaja 3: Olhem, lembrei-me do ABC. Será que dá?

Gaja 7: Moro a 5 minutos. Querem que veja?

Gaja 3: Afinal se calhar também vem a @gaja 11.

Gaja 7: Ligo?

Gaja 2: E os preços?

Gaja 3: Se não bebemos muito, não devem variar do Z.

Gaja 7: Vou ligar. Quantos somos?

Gaja 6: 23,5.

Gaja 2: Mas se a @gaja8 não vai, isso não dá menos pessoas?

Gaja 6: Quem reserva para 23 reserva para 22.

Gaja 7: Está marcado. Logo à noite, no ABC.

Gaja 6: Ufaaaaaaa!

Gaja 3: YES!

Gaja 1: 🙏🙏🙏

10 minutos depois

Gaja 11: Bom dia! Onde é para ir jantar, afinal?

Gaja 10: Ainda cabe mais um?

Indignações miudinhas

As mães, antes do orçamento de estado 2020:

"Não dá para ter filhos neste país. O Estado não quer saber da parentalidade, está-se a borrifar para as famílias com filhos. Devíamos ter mais ajudas. Os ciganos é que estão bem: têm tudo de borla. Esses e os do rendimento mínimo. Andámos nós a sustenta-los."

As mães, depois do governo anunciar a implementação de várias vacinas no PNV, como meta para 2020:

"É sempre a mesma coisa. Eu tive que pagar tudo e na altura ninguém me ajudou. E eu que já dei metade? Onde vou buscar o dinheiro que já investi? Os ciganos é que estão bem: têm tudo de borla. Esses e os do rendimento mínimo. Andámos nós a sustenta-los."

As mães, depois do governo anunciar as baixas por assistência aos filhos pagas a 100% até aos 12 anos:

"Isto agora é que vai ser um fartote! Vai tudo ficar em casa com os filhos. E eu, que nunca fiquei em casa com os meus porque aos 3 anos já tomavam paracetamol e ibuprofeno intercalado de 4 em 4 horas para a febre e já sabiam emborcar o antibiótico sozinhos, dizia eu, ando eu a trabalhar para estas sostras molengonas ficarem em casa com os filhos. É sempre a mesma coisa. Os ciganos é que estão bem: têm tudo de borla. Esses e os do rendimento mínimo. Andámos nós a sustenta-los. E agora também às mães que ficam de baixa com filhos doentes. Olh'agora..."

As mães, depois do governo anunciar que pondera (reparem: PONDERA) atribuir creches gratuitas às crianças do primeiro escalão de abono:

"O quê?! Como assim quem está em casa não paga nada?! Então e os outros? E os 'morcões que trabalham de sol a sol' têm direito a quê? É sempre a mesma coisa. Os ciganos é que estão bem: têm tudo de borla. Esses e os do rendimento mínimo. Andámos nós a sustenta-los. E agora também às mães que ficam de baixa com filhos doentes. E ainda com as creches dos que estão em casa a coçar a micose e têm o primeiro escalão de abono."

As mães, depois do governo anunciar que vai atribuir um cheque para apoio ao pagamento da creche, a partir do terceiro trimestre de 2020, para famílias com dois ou mais filhos e independente do rendimento do agregado:

"Deve ser uma esmola. Aposto que é uma esmola. Os ciganos é que estão bem: têm tudo de borla. Esses e os do rendimento mínimo. Andámos nós a sustenta-los. E agora também às mães que ficam de baixa com filhos doentes. E ainda com as creches dos que estão em casa a coçar a micose e têm o primeiro escalão de abono."

O facto de termos um deputado de extrema direita, cujos compinchas de partido têm ligações diretas a grupos nazis: detalhe.

O facto de pagarmos TODOS a dívida GIGANTE do BES, aquando o rombo do Salgado: detalhe.

O facto da esperteza de Berardo o ter levado a guardar a sua fortuna tão bem guardada que ele nem se lembra onde a pôs: detalhe.

O facto de Isabel dos Santos ter desviado e enfiado dinheiro no bolso pequenino das calças de ganga, num país que onde água potável é sinónimo de ostentação: detalhe.

O facto do Trump ter atacado o Irão e estar no poder há demasiado tempo: detalhe.

O facto de, em Portugal, a economia paralela ser um problema grave, mas continuarmos todos a enterrar a cabeça na areia e solicitarmos serviços sem fatura ou 'ao amigo': detalhe.

O facto de, em Portugal, haver empresas com capital social que fazem chorar a rir o ceguinho: detalhe.

O facto de sermos um país idoso, muito perto do precipício para o estado social: detalhe.

O facto de termos uma das maiores e mais vergonhosas taxas de abstenção nas últimas eleições: detalhe.

Sermos, ou tentarmos ser, um estado social, onde quem ganha mais desconta mais, para que quem tem menos, tenha algum apoio: máxima importância.

Haver excepções abusadoras na fatia dos que recebem mais apoios do estado: Ultraje.

Mas os ciganos é que estão bem: têm tudo de borla. Esses e os do rendimento mínimo. Andámos nós a sustenta-los. E agora também às mães que ficam de baixa com filhos doentes. E ainda com as creches dos que estão em casa a coçar a micose e têm o primeiro escalão de abono.

Desafio dos Pássaros #15

O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana. Descreve uma dessas entrevista

Rudolfo bufou, exasperado. 

Já tinha feito mais entrevistas de emprego do que os embrulhos de umas horas de trabalho de um Elfo. 

À sua frente já se tinham sentado: um Pai Natal bêbado depois do seu turno no centro comercial, Rita Ferro Rodrigues que lhe limpou a paciência para os próximos três anos com o politicamente correto, André Ventura que tentou ludibriá-lo com discursos utópicos e assertivos, mas dali não levou nada, que Rudolfo é só um antílope e não um peixe. Esteve três infinitas horas com Joacine, apenas para ela lhe dar os bons dias. Quando a conseguiu despachar, colocou o Radio GaGa em loop, só para descontrair. Trump também tentou a sorte, mas recuou quando Rudolfo frisou que "todas as crianças do mundo, incluem também as mexicanas." Seguiu-se Bolsonaro, que saiu chamando a rena de "animal", quando este lhe disse que teria de usar uma política mais sustentável. Até Greta apareceu, cheia de ideias inconcretizáveis e um punhado de embalagens recolhidas das Maldivas, com as quais pretendia embrulhar todos os presentes do mundo. Bonito, mas inconcebível num curto espaço de tempo. Numa das suas pausas para o lanche, ainda esbarrou com Marcelo Rebelo de Sousa, mas o homem só queria um selfie e não o cargo. Do mal o menos, sempre era mais publicidade para atrair mais candidatos ao cargo. 

A vida não era justa. Tinha pedido férias ao patrão e justamente nesta semana é que o sacana do velho anuncia a reforma. Engoliu o resto do almoço e bebeu o café de um trago só. O próximo entrevistado esperava-o e tinha grande fé neste candidato. 

- Então, diga-me: está disposto a deixar tudo para fazer as crianças mais felizes nesta quadra? 

- Eu já não tenho quase ninguém, sabe. A minha família apoia-me e vou sentir-lhes a falta, mas eu sei que ainda consigo fazer melhor e compensar, de alguma forma, os erros que cometi. 

- Tem experiência em cargos similares?

- Não com tanta responsabilidade, seguramente. Há uns anos largos, numa outra vida, fiz várias pessoas felizes com sorteios num programa de televisão. Era gratificante poder oferecer alguma coisa a alguém que, muitas vezes, não tinha nada. 

- Um programa de televisão, disse? 

- Sim, sim. Olhe, até tinha uma ajudante, quase como o Pai Natal o tem a si. 

- A Lenka? 

- Não, não... - assegurou o entrevistado por entre risos - a minha ajudante era mágica, criou todo um mundo de imaginação à sua volta, as pessoas sonhavam com ela e nem sequer tinha uma curvas tão atractivas como as da Lenka. Fazíamos uma boa parelha. Se conseguir o cargo, vou perguntar-lhe se está disponível para voltar a espalhar magia comigo. 

- Ajudas são sempre bem-vindas. E com magia, ainda melhor! E diga-me: crianças. Como se dá com elas? 

- Oh, as crianças...! O que gosto de crianças! E de as fazer felizes. São um profundo poço de aprendizagem, sabe? Valorizam as mais pequenas coisas e ensinam-nos que o que realmente vale a pena, o que realmente importa não são os presentes mais caros ou as marcas mais luxuosas: é o momento, o tempo e o carinho que lhes dedicamos. Adoro crianças! 

- Há muito tempo que não aparecia aqui alguém com um discurso tão entusiasta sobre a miudagem, sabe. Até deu gosto ouvir. Creio que temos contrato. Vamos só tratar das formalidades e começa... amanhã. Que me diz, senhor... Peço desculpa, relembre-me o nome, por favor? 

- Cruz, Carlos Cruz. 

 

Desafio dos Pássaros #14

Não nasci para isto

É a 265ª vez que lhes repito o mesmo: não nasci para isto. 

Os sacanas insistem: ninguém nasceu, trabalha-se e consegue-se. Depois, mandam-me para mais uma ronda. 

Não aguento mais. Já não sinto as pernas, falta-me o ar, sinto-me a colapsar de dentro para fora. Como é que eles não vêem? Como é que eles não percebem que, se continuar assim, vão acabar por me mandar para a morgue, ou pior para o hospital? Como é possível ignorar as dores de uma pessoa assim desta maneira tão vil? 

Como numa espiral de euforia que nos leva a loucura, a música continua. Grita aos nossos ouvidos, impelindo-nos mais um pouco para diante. Há sempre um olhar de compreensão que se troca com um colega, na impossibilidade de articular qualquer palavra. Estamos todos no barco, custa o mesmo a todos. Saber disso, mesmo não atenuando a nossa agonia, ajuda a suportar o peso com que nos carregam as costas. 

Olhamos em frente, em busca de novas ordens, exaustos, derreados e já a ver a luz ao fundo do túnel - não a da esperança, a outra que os moribundos alegam existir. 

- Não nasci para isto - repito novamente para mim. 

- Não desisssstteeeeeeeee! - é o grito que se ecoa pela sala, com um olhar reprovador sobre quem tem a audácia de respirar um bocado. 

- Mais oitoooooo! 

- Não nasci para isto - penso, enquanto conto o número de cobras, sem sentir os braços. 

Finalmente, termina. 

Como se sofrêssemos de amnésia, agradecemos ao nosso carrasco, elogiando o seu trabalho e prometendo voltar. É sempre assim: quanto maior o desafio, maior o vício. A mente sai leve, não sentimos nada e nem sequer sabemos como vamos descer escadas no dia seguinte. Nesse momento, temos a certeza: mesmo não nascendo para aquilo, é exactamente daquilo que precisamos. 

 

(texto inspirado numa qualquer aula de crosstraining. Ou Power. Ou Jump. Ou Fitness, no geral.)

 

 

E se a Imaculada Concepção fosse hoje?


Comecei isto em dezembro passado, creio que tem dois capítulos, mas depois passou-se o timming natalício e deixou de fazer sentido.
Este ano termino a saga "E se a Imaculada Concepção Fosse Hoje?"

(Não recomendado a pessoas com sentido de humor enfraquecido ou que se ofendem com humor religioso)

I Capítulo

9:00 da manhã, na reunião de Conselho Celestial:

Deus: - Miguel, quero um filho. Vai lá baixo e trata-me disso, por favor. Leva o Espírito Santo contigo.

Miguel: - Outra vez eu?!

Deus: - Sim, outra vez tu. Tens algum problema com isso?

Miguel: - Por acaso tenho. Começamos por onde? Pelas horas extra que fiz para encontrar o Daniel no meio daquele jejum maluco que o gajo fez no deserto?! Ou pelos treinos bi-diários a que me sujeito para a batalha final que nunca mais chega? Onde está o MEU momento de glória que prometeste quando me contrataste, hã? Estou estagnado na minha carreira desde as profecias que me anunciam e isso é injusto!

Deus: - Outra vez essa conversa? Queres falar de horas de extra? E as que EU fiz para VOS criar?! O tempo que dispendo constantemente para a vossa formação, o meu esforço e criatividade em milagres capazes de nos sustentar por milénios. Perpetuei a tua imagem, vives dela e tu vens-me agora com sindicalismos e reivindicações? A mim?!

Miguel: Eh pá, não me venhas com tretas... O milagres também te deram jeito e nós todos contribuímos para que o teu bom nome sempre fosse salvaguardado. Mesmo quando Lú...

Deus: Parou! Não te admito que me fales nesse tom, muito menos que menciones a concorrência! Se não queres trabalhar, há mais quem queira e sem um terço das tuas lamentações. Há quem vista genuínamente esta camisola e não esteja aqui só à procura de glórias, sabias? Agora desaparece-me da vista antes que eu me esqueça quem és e te retire a promoção deste mês. E podes dizer adeus às férias do próximo ano.

Gabriel: Senhor meu Deus, considera que tenho capacidade para tarefa tão magnânima? Muito gostaria de o ajudar na concepção de alguém capaz de o ajudar nesta árdua tarefa de liderança do céu.

Deus: Tazaver Miguel? Há sempre quem queira trabalhar... Vai Gabriel. Que o Espirito Santos te acompanhe, leva uma manta que faz frio lá em baixo. Falamos do r€sto quando voltares. Se tiveres cumprido bem a missão.

 

Desafio dos Pássaros #13

Reescreve o final de um filme

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O vento soprava furioso e impedioso, arrastando consigo o inverno gelado. 

Ana, que mal conseguia andar, vislumbrou ao longe Kristoff e forçou as pernas na sua direção. 

Ao mesmo tempo, Hans desembainha a sua espada para o último e derradeiro golpe: aniquilar uma Elsa vulnerável. 

Numa última tentativa de fazer o que está certo, num último grande gesto de amor verdadeiro, Ana defende a irmã, congelando ao último suspiro. 

- Resultou? - pergunta por cima do ombro.

- Tal como previste querida. És um génio! Mas... E agora? Ela não vai descongelar, já que este foi o seu último acto de "amor verdadeiro?" - questionou Hans. 

- Querido, por algum motivo eu nasci com poderes e não a tonta da minha irmã. 

Aproximando-se da estátua gelada de Ana, Elsa canta sinistramente enquanto pequenos flocos de neve que saem das suas mãos se acomodam na pele gelada da irmã: 

Vem fazer bonecos de neve?
Há um que é só teu

- Magnífico! - aplaude Hans - E... os outros? - questiona apontando para Kristoff, Olaf e Sven. 

Elsa encara, pela primeira vez depois daquele momento, os três pares de olhos que a fitavam com desconfiança, horror e estupefacção. 

Numa atitude algo teatral e cuidadosamente encenada, pergunta: 

- Oh! Não me apercebi que estavam aí... Que horror! Que fui eu fazer? A minha única irmã...! 

Olaf abriu a boca para tentar falar, mas um raio de gelo atingiu-o antes sequer de o conseguir fazer. 

O mesmo aconteceu à rena e ao dono, eternamente convertidos em estátuas geladas, quedas e mudas. Para sempre petrificados. 

- Achas que cabem no jardim do palácio, querido? Não me apetecia olhar para eles sempre que estiver no salão. 

- Arranja-se maneira, meu pequeno floco de neve. Tratas da nuvem de inverno para os manter assim e eu trato de os colocar a decorar o jardim. Vai ficar lindo no Natal! 

 

Carta aberta ao meu país

Querido Portugal,

Não sei se já almoçaste, espero que sim, com aquela missiva que recebeste anteontem aposto que ficaste com vontade de fazer jejum intermitente. Se precisares de nausefe apita, tenho um stock jeitosinho...

Portugalito, antes de mais, deixa-me agradecer-te: foi graças à educação que me proporcionaste, que percebi, quase na primeira linha, que aquilo não era um artigo de opinião. Era uma composição da quarta classe de um miúdo que, claramente, copiou e adaptou o discurso do pai, administrador de condomínio do prédio XPTO onde vive.

Obrigada pela minha professora de Filosofia que tanta paixão tinha pela carreira, conseguiu pôr 16 marmanjões e 1 molusco a raciocinar e usar esse músculo tantas vezes esquecido: o cérebro.
Não te vou agradecer a professora de inglês do 7°ano, porque não ensinou que se diz "àpple" e não "aiple", mas agradeço todas as de português que sempre batalharam nas vírgulas antes das conjunções coordenativas adversativas, bem como no crime que é a separação com vírgula do entre o sujeito e o predicado.

De seguida, querido País à beira mar plantado, quero agradecer-te a saúde.
Não, não te vou mentir: tens de te esforçar e melhorar muita coisa. O SNS é um caos e o sistema onde está inserido é um edifício em ruínas. Contudo, nem tudo é negro e eu acredito mesmo que o coração da saúde, o humano, é bem capaz de suplantar a tinta descascada e o buraco no tecto do hospital de Gaia. Podia ser melhor? Podia. E vai ser. Só tens que te esforçar um bocadinho mais, ouvir um bocadinho mais e vir um bocadinho mais o terreno.

Ainda nesta área, obrigada pelo respeito e dignidade com que tratas quem decide, seja porque motivo for, interromper uma gravidez. Falta a eutanásia, mas lá chegaremos. Isso e tornar as vacinas obrigatórias de uma vez por todas. Com calma, eu acredito em ti.

Ainda na minha humilde lista de agradecimentos, constam os políticos. Obrigada pela interminável novela mexicana partidária com que nos presenteias de vez em quando. Obrigada pelos stand ups de comédia gratuitos que são os discursos eleitorais. Obrigada por transformares, tantas vezes, a Assembleia da República num reality show de horário nobre. Não fosse isso e grande parte dos humoristas ficava sem trabalho, mas tu pensas em tudo e não queres que nos falte nada, meu bom amigo.

Agradeço ainda, sem ponta de ironia, a liberdade.
A liberdade de dizer barbaridades com 17 anos, num dos maiores jornais digitais da atualidade e a liberdade de poder refutá-lo e ridicularizá-lo nesta publicação. A liberdade de dizer que o Estado Novo faz parte da história, do qual Salazar foi um governante imponente, mas que não foram tempos gloriosos e que não o queremos, de todo, de volta.
A liberdade para escolher ter um filho sozinha, para abortar, para adoptar numa relação homossexual, para trocar de sexo, para aumentar as mamas, para pôr o glúteo na nuca ou para forjar umas pestanas capazes de provocar furacões na Tailândia.

Acima de tudo, Portugal, obrigada pela internet, pelos jornais digitais e pela informação que rapidamente me entra pelos olhos adentro. Mesmo que às vezes seja uma merda.

Em nome dos Descobrimentos, das batalhas perdidas e dos tratados assinados,

Amén!

Diário de uma grávida #19

Já sinto, por vezes, o feto a mexer cá dentro. 

Fico derretida quando isso acontece, mas depois lembro-me que, correndo tudo bem, vai crescer, passar de gramas a quilos e vou levar biqueiros no fígado e nos rins. Mal posso esperar!

O meu apetite normalizou ligeiramente, mas há dias em que passava bem sem almoçar ou jantar. Isso irrita-me um bocado, porque se há coisa que adoro nesta vida é enfardar como uma alarve em vias de extinção. Tudo bem, temos sempre a sopa e as tostas mistas. 

Estou menos irritadiça em casa, o que é fixe para o homem e péssimo para os fornecedores do trabalho. Alguém tem que servir de saco de boxe, não é verdade? 

Os teóricos das gravidezes insistem que a líbido aumenta neste trimestre. A maioria das grávidas sente isso mesmo. Já eu estou em crer que minha quinou de vez e já lhe celebrei a missa de 7º dia com o único cacete que me apetece ver à frente: o de regueifa. Com manteiga e ligeiramente torrado. 

Modos que é isto. Continuo com o cérebro feito em papa cerelac com três dias, mas cá me vou arranjado com as notas do telemóvel. E os post its para não me esquecer de ver as notas do telemóvel. E o homem para lembrar dos post its que me lembram as notas do telemóvel. 

Para a semana chegamos a meio! YEAH! 

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Diário de uma grávida #17 e #18

Esta semana há Diário a triplicar, porque isto atrasou comó caraças. 

Saem hoje as duas últimas semanas e lá para quarta feira a semana actual. É muita gravidez, eu sei, mas se eu aguento, vocês também. Sejam fortes. 

#17 

Estivemos de férias nesta semana. Fomos buscar o carrinho - cortesia de uma amiga que tinha um trio parado - e vi-me à nora para desmontar aquela treta. 

Junto com o bólide de Pequena Bola D'Unto, a amiga enviou "algumas roupinhas que tinha em casa". 

Desconfiem sempre quando uma mãe vos diz "algumas roupinhas": são sempre toneladas. Fora todas aquelas que ainda tenho do irmão mais velho, estou em crer que só aquelas "algumas roupinhas" davam para vestir uma pequena aldeia de bebés africanos. 

Aumentei 2 kg de peso, desde que engravidei. Atrevam-se a dizer que é pouco e levam com um haltere equivalente no mindinho do pé. Alvitrem que é óptimo de deviam vomitar os pequenos almoços. Todos os dias. 

Como podem ver, o meu humor está espetacular. 

Prevê-se que seja uma gaja. Nada de novo, sempre disse isto, mas caso se confirme na morfólogica, aviso logo a cachopa  do fado que a espera: vai usar a roupa do irmão até à adolescência. 

Comprei-lhe a primeira farpela. Cheia de laços e folhos. Se se confirmar que é gaja, vai ser uma pirosona. 

Lembram-se dos meus probióticos? 

Sôtora diz que, passo a citar "Tomar e não tomar é igual ao litro. Mas mal não faz, se sente bem continue." 

Chorei baba e ranho pelo guito que larguei na farmácia à conta dos ditos. 

Depois tomei nausefe. 

#18 

Sinto-me enorme e ligeiramente menos bipolar, mas as pessoas, no geral, teimam em testar a resistência da minha paciência, sobretudo quando me fazem a mesma pergunta, 78 vezes ao dia: "tens a certeza que é só um?"  

Não, não tenho. Nem eu, nem a ecografista, nem a ginecologista. Estamos às aranhas. Ou aos bebés.

Pela 7992 vez: é só um. 

Como disse, o meu humor melhorou, tal como a energia. Não está nos píncaros de antigamente, mas também não anda em valores negativos. Muito às custas dos treinos para onde me arrastei qual carcaça de lontra albina, mas a verdade é que o contrabalanço de energia é palpável. Pelo menos para mim. Vou esforçar-me por manter este mínimo de 2/3 vezes/semana até ser expulsa por mau feitio. Rezem por eles, eu já não tenho solução. 

Por falar em exercício, era capaz de me habituar a esta vida fit de grávida. Sempre tudo cheio de paninhos quentes "ai, cuidado, não pegues nesse peso, olha o outro mais leve", "não levantes, está bem? Mantém sentada e ritmo constante (Cycle)". Habituava-me a esta vida, na boa. 

O problema é que me apetece sempre revirar os olhos quando quero fazer como os restantes e me ordenam o contrário. Fico danada. Depois sinto os pulmões e agradeço aos céus as benesses de prenha. A malta nunca está bem. 

Para compensar os atrasos, duas fotos da pança. 

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Voltamos quarta.