No dia dos namorados fiz um bolinho de manhã, antes de vir para o trabalho (sim eu faço coisas antes de vir trabalhar, não perguntem muito, ok? 🙄), nada muito elaborado apenas um bolo de chocolate de dois ingredientes e como de costume o rapaz pediu-me para rapar a taça. Disse-lhe que sim e quando dou conta tem a cabeça enfiada lá dentro com o chocolate a deixar um rasto quase até às orelhas. Mudei de estratégia e disse-lhe:
- Olha filho, vamos fazer antes o seguinte: rapamos parte desse chocolate para a tua caneca do leite e hoje tens leitinho de aveia com chocolate. Que me dizes?
Ficou todo contente e lá metemos o salazar ao barulho. Ele ficou a beber o seu leite com chocolate especial, feliz da vida, enquanto eu fui buscar a roupa lavada à lavandaria. Quando chego deparo-me com o este cenário:
Miúdo em pé numa cadeira em frente ao balcão a despejar o leite da caneca para a taça.
Quando lhe pergunto que raio está a fazer responde com a sapiciência dos seus quatro anos:
- Ainda tinha aqui muito chocolate, mamã. Assim não há tanto desperdício porque há meninos que não têm.
Pumbas! 1-0 à cara podre sem dó nem piedade. Recompus-me rapidamente e continuei:
- E depois como tencionas beber isso? Ainda vais fazer asneiras...
... E levar por cima, tive vontade de acrescentar. Levei como resposta:
- Banho em sais minerais do oriente e óleo de argão vindo diretamente de Marrocos. Nem um pêlo à vista e a água desliza pela pele como se tivéssemos uma capa hidrofoba patenteada pela Zeiss.
- Música romântica de fundo, média luz, pétalas de rosa nos lençóis, duas flutes de espumante e um prato de morangos em cima da mesa de cabeceira.
- Sabe Deus quando acaba. A madrugada é o limite.
Depois dos filhos:
- Duche à pressa com gel de banho do Catraio porque o nosso acabou e não lembramos de comprar outro. O único óleo lá por casa agora é o de bebé e a lâmina percorre as pernas às cegas criando auto-estradas no meio da selva de pelugem Pernal.
- Como é que se chamava aquela música? Oh, deixa lá fica mesmo na RoseBonbon que até tem nome romântico e o que conta é a intenção. Migalhas, brinquedos pequenos (ou pior: peças de Lego) no meio dos lençóis, mas amor precisa de emoção, não é verdade? "Que barulho é este? Levantou-se! Tapa-te!" Na mesa de cabeceira habitam duas coisas: fraldas e toalhitas no caso dos bebés pequenos ou toalhitas e brinquedos no caso de mais graúdos.
- O próximo choro ou chamamento é o limite.
Há quem lhes chame o melhor do mundo, eu acho que empata-loves também era bonito.
Ora bem, parece que agora é de bom tom pedir autorização aos miúdos bebés para lhes trocar a fralda.
Sendo assim, eu Caracoleta Mamã, quero que o meu miúdo me peça autorização para:
- Pentear-me com as suas mãozinhas assustadoras e capazes de assassinar fios de cabelos, deixando poros dolorosamente viúvos pela cara metade. Com escova tudo bem, com mãos, senhor meu filho, é preciso autorização prévia e requerimento enviado por correio registado. E não há cá trocas a meio do penteado, é escova até ao final ou terás de questionar "Senhora Dona Mamã, posso usar agora aos mãos neste bocadinho de cabelo que ainda te resta?"
- Fazer birras. Imediatamente antes de se atirar para o chão a bracejar e espernear num lago de baba e ranho porque não o deixo ir de pijama para a escola, quero que o moço pergunte diligentemente: " Senhora Dona Mamã, posso fazer uma birra? Muito feia e muito grande? Por favor?" Assim é que é bonito e de menino bem educado, capaz de perceber o consentimento do outro.
- Sujar-se na lama. (aplicando a mesma regra das birras e sempre precedido do título 'senhora dona Mamã', que o respeitinho é muito bonito e está em vias de extinção)
De momento são as que me ocorrem. Qu'isto agora é tanta autorização entre pais e filhos que daqui a nada não temos lar nem família, temos repartições de laços entre seres com o mesmo ADN. Agora vou só ali terminar de preencher o impresso 156 do modelo 7, que preciso que o miúdo rabisque para lhe poder dar banho logo à noite. (Em miúdos até aos dois anos é o modelo 6, que é impresso num papel resistente à baba. De nada.)
- Mamã, as vaquinhas têm leite? - Têm sim Caracolinho. - E os senhores puxam o leite delas? - Puxam, filho. Mas não deviam... - Pois não! Porque o leite delas é dos bebés delas.
Nunca lhe falei sobre a ordenha, já a sobre a segunda parte falámos pela primeira vez ontem. E nós? Quanto tempo mais precisaremos para perceber o mesmo?
Estamos com um grupo de amigos, em amena cavaqueira, quando o chamo a atenção para finalizar o seu lanche TODO dada a impertinência anterior para o ter. Estou eu ali, a exercer o meu poder de mãe, a modular a minha voz de "bamby" para voz de comando num discurso sobre birras e terminar tudo o que pede sem deixar uma migalha ou gota. quando ele contra-argumenta de forma muito séria e sentida:
- Oh Mamã! Tu és tão linda!
Como é que se dá seguimento ao sermão depois disto?
- Parolinho (vesti-lhe roupas com os mais variados padrões numa salganhada de cores, riscas e quadrados)
- Mini aspirante a fit (umas leggins, umas caneleiras em lã, sapatilhas, camisola justinha, toalha pelos ombros, uma garrafa de água catita, halteres com balões e 'tá andar)
Este ano e como sou muita fã do Carnaval (#soquenao) pensei em disfarça-lo de Wally. Super fácil: gorro vermelho, camisola às riscas vermelhas, calças ganga, óculos gigantones redondos. Um espétaculo.
Hoje de manhã enquanto falavamos sobre isso, responde-me do alto dos seus três anos:
- Não quero ir de Wally, mamã. Quero ir de pijama.
- Mas pijama não é bem difarce, Caracolinho.
- Mas eu queria... Posso?
Sai um Soneca para mesa do canto, faxabor, que no Carnaval pode-se tudo!
(E ainda por cima rápido de r€solver. Cá beijinho meu rico filho.)
Quando eu fui mãe, já todas as amigas o haviam sido. Já todas sabiam para o que ia e todas fizeram questão de me deixar indicações. "Vai ser maravilhoso! Vais cair para o lado de sono... Mas é maravilhoso!" Ninguém me mentiu ou pintou a coisa mais cor de rosa. E, em boa verdade, eu já sabia que isto é uma montanha russa e não um carrosel de cavalos alados. No entanto, o que eu quero mesmo saber é: Porque é NINGUÉM (reparem bem, nem uma alminha de boa fé) me disse que me iam tentar arrancar cabelos a fazer trancinhas. É que o moço diz "Mamã, posso pentar-te?" e toda eu estremeço, numa agonia pelo cabelo que ainda me resta. Chego a questionar-me se tem garras em vez de dedos, depois lembro-me que é gajo e portanto delicadeza é algo que geneticamente não lhe assiste. Mães deste mundo: não estão sozinhas. O meu cabelo também sofre. Estamos juntas.