Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Tema 2 - O amor e um estalo

Aurora encolheu-se um pouco mais, enroscando-se sobre si mesma, como se pretende-se desaparecer entre os cobertores da cama vazia. 

Deixou-se afogar num choro inconsolável e silencioso. 

Que fizera para merecer semelhante fado? Que raio de karma era este que lhe tirava o tapete do chão, uma e outra vez? O que fizera de errado? A culpa era sua. Tinha que ser sua. A quem mais cabia a função de proteger uma vida em curso, se não à mãe? De nada adiantava os médicos argumentarem que não a culpa não era dela, que não havia que pudesse fazer para impedir.

"São coisas que acontecem" - dissera-lhe a doutora Irene. 

Só que para Aurora, já era a terceira vez que "as coisas aconteciam" e desta vez esteve tão perto do limite temporal estipulado, permitiu-se sonhar mais alto, ver além do número 12, voar para lá do medo. Um luxo que lhe custou uma queda demasiado violenta. Não conseguia aguentar-se sequer de joelhos e tampouco saberia quando iria conseguir levantar-se. 

No torpor de um corpo dormente e dorido pelo constante soluçar, chegou-lhe a sensação acolhedora de um abraço. Uma nova torrente lágrimas molhou-lhe o rosto, o corpo foi sacudido por novos soluços. O abraço ficou mais apertado, cingindo-a num aconchego familiar. 

Instintivamente, num acesso de fúria, tentando manter consigo a dor que lhe queimava a alma e recusando qualquer consolo, Aurora desferiu um estalo na face de Jorge. Primeiro um, depois outro, outro ainda, tentando a todo o custo libertar-se do abraço que ele insistia em manter apertado. Não queria consolo, não queria pena, queria que a culpasse também que a odiasse, que dissesse que era pior mulher e a pior mãe do mundo. 

Quando por fim se cansou, a fúria deu lugar ao vazio. Pela primeira vez, naquilo que lhe parecera muito tempo, Aurora não sentiu nada e deixou-se levar pelo torpor que lhe invadia o corpo. 

- Não estás sozinha. Eu vou estar sempre contigo. Desculpa se falhei. Não estás sozinha. - foram as últimas palavras que ouviu, antes de mergulhar num sono profundo. 

 

2 comentários

  • Imagem de perfil

    A Caracol 23.09.2019

    Obrigada Fatia! :D
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    foto do autor

    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D