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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

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Tema #6 - O amor, uma cabana... E um frigorífico

 

A mesa estava posta.
O jantar estava pronto.
O aquecimento estava ligado.
Era mais fácil elaborar a lista de tarefas mentalmente, a última coisa que queria era estragar aquela noite. Afinal, não eram todos os dias que se celebravam 20 anos de casamento.
Olhou em volta da pequena cabana, satisfeita com o resultado.

André ia adorar!

Era o seu lugar preferido, as suas flores favoritas e o seu prato predilecto. Iam ter que apertar o resto do mês, mas pelo menos hoje poderiam refastelar-se na carne tenra de um cabrito assado.
De regresso ao quarto depois de um banho quente, Sara vestiu o vestido verde esmeralda que o marido lhe dera num Natal.
“Condiz maravilhosamente com os teus olhos” – elogiara André.
Estremeceu ao recordar o som pesado da sua contra o seu pescoço. A mãos hábeis que lhe desapertaram o vestido, desembaraçando-se dele de uma só vez. A língua atrevida e destemida, redescobrindo cada pedaço de pele nu, saboreando os seus recantos mais escondidos.
Forçou-se a parar por ali antes que perdesse o controlo e terminou de pentear o cabelo.
O crepúsculo conferia à pequena cabana uma tonalidade alaranjada, quente e aveludada. Acendeu as velas do parapeito da lareira e colocou o castiçal na mesa.
Do velho frigorífico, já gasto e com ferrugem em algumas zonas, tirou um Planalto fresco que abriu sem demora.
- Um destes dias este velhote tem que ir para a reforma. – dizia constantemente André.
Sara refutava, alegando que a idade trazia personalidade e conferia carisma ao velho frigorífico. Era das poucas peças que a cabana possuía quando a compraram, das poucas a que Sara se apegara. Estava com eles desde sempre, tal como aquele esconderijo que há 20 anos se tornara o pequeno tesouro deles.
A noite caiu estrelada, com quarto minguante perfeito.
André iria adorar.  Talvez pudessem observar as constelações, depois do jantar.
De volta à pequena sala, Sara colocou o jantar na mesa. Cheirava divinamente.
Sentou-se, aspirando novamente os aromas familiares e reconfortantes da pequena divisão.
Tabaco, madeira, comida caseira, canela e maçã. Absolutamente perfeito e tal qual se lembrava, desde sempre.
Sorrindo, serviu-se de carne e batatas.
Encheu o copo de vinho, levantando-o num brinde imaginário à figura que a fitava  atravésda moldura colocada no local onde estaria o segundo prato.


- A nós, meu amor. Onde quer que estejas.

 

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